sexta-feira, 13 de abril de 2018

Testemunhas da Transformação

Texto do Evangelho deste domingo: Lc 24, 35-48

Esse texto é uma espécie de toalha bem bordada que o evangelista, com
muito cuidado, foi tecendo em pormenores. Algumas vezes, durante a leitura,
eu salientei palavras e expressões para que vocês percebessem isso. O primeiro
pormenor é que esse evangelho se liga ao trecho anterior que trata dos discípulos
de Emaús. Eles encontraram Jesus e o reconheceram ao partir o pão.
O evangelho de hoje começa quando eles voltam a Jerusalém, à comunidade.
Entram na sala onde estão os apóstolos e contam o que o Senhor tinha feito
com eles. Nesse exato momento aparece Jesus. Vocês acham que pode ser
uma coincidência qualquer? Por que o Senhor aparece exatamente na hora da
narração? Por que não apareceu antes ou depois?
Eu queria chamar a atenção para uma coisa importante. O povo de Israel
sempre viveu da memória. Todos os anos, quando celebram a páscoa, acontece
uma cena muito bonita. Numa grande ceia, num grande jantar, o pai venerando,
geralmente de barbas longas
, abraâmicas, senta-se à mesa, e o flho caçula
pergunta-lhe sobre o que estão celebrando. O pai responde: “Meu flho, quando
estávamos escravos no Egito, o Senhor chamou Moisés...” E conta toda a história.
Todos os anos a mesma cena se repete, e a história de Israel se impregna no povo
judeu. Por isso até hoje o povo judeu se mantém unido. Mesmo depois de tantas
perseguições, exílios, holocausto, campos de concentração, eles continuam
frmes, porque a memória os congrega. O narrar, o contar a história fez com
que o povo crescesse e permanecesse unido. Nós, na liturgia, deveríamos contar
muito mais.
Alerto os pais que contem, narrem histórias para seus flhos. Nada é mais
forte para formar a consciência de uma criança, para plasmá-la, do que a história,
a narração. Narração da escritura, da nossa fé, da vida da família, da história do
Brasil. “Era uma vez Tiradentes...” Até JK de vez em quando precisa aparecer
na história. “Era uma vez uma época tenebrosa, o regime militar, que matava,
torturava...” Os jovens precisam saber disso. Precisamos narrar a história. Um
povo sem memória é um povo perdido, superfcial, banal, que vive de programas
de televisão, apenas com o último acontecimento. Não tem raiz, e o primeiro
vendaval derrubará a árvore. Um povo que tem história está plantado. Pode vir
toda a americanização, que permaneceremos brasileiros, mineiros, porque temos
uma tradição, séculos de história. Temos Ouro Preto, Inconfdência Mineira,
temos heróis, pessoas que morreram pela nossa liberdade. Nada disso existe para
os nossos jovens, e sim, o último jogador de futebol, o último Ronaldinho; aquela
artista de televisão que muda a cara numa plástica ou através de cosméticos. E
vão todas as
stars startizando um mundo vazio. A cada semana, uma diferente,
sem história, sem passado, sem memória, sem futuro. Apenas um corpinho

80bonito, todo modelado em milímetros. A história não é isso. Ela carrega o peso
de pessoas sofridas. Precisamos contar, narrar muitas histórias, a começar da
história de vocês, pais.
Lembro-me de uma vez em que viajava pela Alemanha e ouvi um pai
comentando que os seus flhos não sabiam o que haviam sofrido para reconstruir
aquele país depois da guerra. Aqueles que viveram a guerra na Europa, que
passaram dois ou três anos de fome, agora viam uma Europa rica e não poderiam
esquecer que passaram fome. Betto (*), quando fala de Lula, diz que ele não foi
apenas pobre, mas miserável. Passou fome, chegou a disputar um pedaço de pão
com seus irmãos, porque não tinham alimento sufciente. Viajou para o sul num
caminhão pau-de-arara, sujo, para tentar sobreviver. Precisamos conhecer essas
histórias, saber o que as pessoas sofreram. Embora este país não se lembre de
nada, ele foi construído com suor, com sacrifício, com luta. Quando narramos a
história, o Senhor aparece. Ele está presente nela, nos acontecimentos.
Uma segunda coisa: como o Senhor se identifcou? Como já falei na
semana passada, volto a repetir: Ele mostrou as mãos e os pés. Claro que
imediatamente pensamos nas chagas. Por que as mãos e por que os pés? Ele
foi um grande andarilho. Não tinha nenhum BMW, nenhum Astra, nenhum Fox
para andar pelas estradas. Ele ia a pé. Também não tinha um tênis Nike para
caminhar. Tinha uma sandália rústica e, às vezes, descalço, palmilhou as estradas
pedregosas, poeirentas, cheias de espinho, daquela Palestina pobre, miserável.
Caminhou para que as suas mãos tocassem o cego e o fzesse ver; tocassem a
pele machucada de um leproso e o curasse; tocasse o esquife de um jovem que ia
ser enterrado, para que ele voltasse à vida; tocasse a cabeça de uma pecadora e
fazer com que o perdão de Deus a purifcasse. Para tocar, tocar, tocar.
Será que nós somos reconhecidos pelos nossos pés e pelas nossas mãos? O
que manifestamos através deles? Será que nossos pés caminham em direção ao
pobre, ao miserável, aos solitários, aos tristes, aos que estão em asilos e precisam
de pés que cheguem perto deles? Será que as nossas mãos carregam as crianças
pequenas, acalentam-nas com carinho e afeto, fazendo-as crescer no caminho do
bem e da verdade? Os nossos braços falam, o nosso corpo fala. Será que o nosso
corpo fala de Deus, de beleza, de pureza, de entrega de si? Ou os nossos corpos
vedam a verdade, o bem; obscurecem a beleza; torna escura a nossa caminhada?
O Senhor soprou e abriu-lhes a inteligência. Precisamos ter a inteligência
aberta. Já repararam que nos distinguimos dos animais exatamente pela
inteligência? O cachorro late, e o homem pode latir também. Só que o cachorro
late por instinto, e o homem pode latir por inteligência, para assustar e espantar.
A inteligência percebe a realidade, por ela lemos a escritura, podemos entender o
projeto de Deus, como a história se constrói e, na história, percebemos o seu agir.
O mais importante é ter a história na mão, como cantava Vandré (**): “Quem
sabe faz a hora, não espera acontecer”. Precisamos saber fazer a hora, e fazer a
hora é transformar a realidade.

81Ainda esta semana, uma senhora que mora no Caieiras (***) me dizia que um
grupo de assaltantes foi preso. Cortou-me o coração, quando ela disse que entre
eles havia uma menina de treze anos. Onde nós estamos? Uma pré-adolescente
de treze anos, apenas despertando para o mundo, e já com um revólver na mão,
disposta a matar, a assaltar. Como é possível que uma pessoa seja destruída na
sua raiz mais profunda de humanidade? Ela foi criada pela Trindade, é flha do
amor infnito de Deus. Onde está sua mãe, seu pai, sua vizinha, o professor?
Onde estão os adultos que deixam essa menina se perder assim tão facilmente?
Precisamos acordar e pensar nessas crianças de nossa cidade. Não é possível que
fechemos os olhos, senão amanhã também elas estarão no caminho da maldade,
da perversidade, porque os nossos olhos não veem, a nossa inteligência não
percebe, a nossa sensibilidade não sente.
O Senhor nos abre a inteligência para vermos a realidade e caminharmos
para a conversão e o perdão dos pecados. São duas expressões tradicionais, e
eu gostaria de voltá-las para a atualidade. Que coisa é converter-se e que coisa
é perdoar os pecados? É criar a fraternidade da reconciliação. Não é possível
que brasileiro lute contra brasileiro, que brasileiro mate brasileiro. Os maiores
criminosos não vêm de fora, são nossos patrícios, moram nas nossas cidades, nos
nossos bairros e se voltam contra nós. Como isso é possível? Que numa guerra
se mate, não se entende, mas argumenta-se que são inimigos, povos distantes.
Mas que habitantes do mesmo bairro se matem, não podemos aceitar. É possível,
porque está acontecendo; estamos dormindo e não percebemos a realidade.
Não sabemos que coisa é conversão, não sabemos que precisamos transformar
a realidade. O Senhor pede que sejamos testemunhas dessa mudança, dessa
transformação. Amém.

 (Pe. João Batista Libânio - 29.04.06/3o.domingo da Páscoa)
(*) referência ao frade dominicano, Carlos Alberto Libanio Christo, o Frei
Betto
(**) referência a Geraldo Vandré, cantor e compositor paraibano, autor do
grande sucesso “Prá não dizer que não falei de flores” ou “Caminhando”
(***) referência a um bairro de Vespasiano.

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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