quarta-feira, 12 de abril de 2017

Sermão do Encontro

Diamantina, 27/03/2013
Queridos irmãos sacerdotes, religiosas, consagradas, seminaristas, irmãos e irmãs em Cristo.
Nos reunimos, nesta noite, para meditar um dos passos importantes de Nosso Sr. Jesus Cristo na sua caminhada rumo ao Calvário, o momento em que Ele, homem das dores, se encontra com sua Santa Mãe, Senhora das dores. O encontro… Este é o tema da nossa meditação espiritual nesta noite. O encontro entre Jesus e Maria. Um encontro doloroso para ambos. Dói exacerbadamente no coração da mãe encontrar seu Filho em tal estado; dói profundamente no coração do filho ver-se encontrado assim por quem tanto o ama. Quanta dor presenciamos nesta cena! Por um momento, nos invade um pensamento: para que uma mãe sofrer tanto assim? Porque um sofrimento tão grande? Melhor seria que os dois não tivessem se encontrado! Que a mãe guardasse na memória a imagem do filho belo, forte, saudável e feliz. Que sentido tem esse encontro doloroso? Seria melhor que ele não tivesse ocorrido, antes que este encontro fosse um desencontro…
Irmãos e irmãs, a vida humana é feita de encontros e desencontros. Para compreender melhor este momento que hoje vivemos, é oportuno voltar às primeiras linhas da Sagrada Escritura e perceber como o ser humano tem uma tendência divino-natural para o encontro e cede à tentação do desencontro. Os dois primeiros capítulos do livro do Gênesis descrevem o mundo tal como Deus o quis: a criação é boa, não conhece o mal nem a corrupção; o homem e a mulher têm igual dignidade, não conhecem a maldade nem o sofrimento; não existem guerras, nem injustiças, nem doenças, nem mortes; não há desequilíbrio interior; a humanidade está em comunhão perfeita com Deus. Enfim, não existem desencontros… O homem se encontra em perfeita harmonia consigo, com os outros, com o mundo e com Deus. Uma das imagens mais belas para significar este estado de encontro é a de Deus que todos os dias, ao cair da tarde, vinha encontrar-se com Adão e Eva e com eles se entretia. Amados irmãos, esta é a imagem do mundo sonhado por Deus: um mundo de paz e harmonia, um mundo de comunhão e de amor, um mundo de encontro amigável de Deus com os homens e dos homens com Deus… Mas sabemos bem que esta imagem não corresponde bem ao mundo em que vivemos, um mundo não sempre de encontros, mas prevalentemente de desencontros…
Houve um desencontro primordial. Se os dois primeiros capítulos do Gênesis descrevem um mundo de encontros, o terceiro capítulo conta o primeiro desencontro da humanidade. A humanidade, simbolizada pelos nomes de Adão e Eva, cedeu à tentação do diabo, simbolizado pela serpente, e afastou-se de Deus. O desejo de “ser como deus”, de chegar à plenitude sem Deus, a ânsia de auto-suficiência, o querer ser dono de si mesmo e não servir a Deus, a independência de Deus, tudo isso caracteriza o pecado original que vige dentro de cada um de nós. Ao cair da tarde daquele dia, quando Deus veio entreter-se com Adão e Eva já não os encontrou: quando “eles ouviram os passos de Deus que passeava no jardim (…) eles se esconderam da presença do Senhor entre as árvores” (Gn 3,8). Estamos diante do primeiro desencontro da história! O desencontro das origens e de sempre! O desencontro do homem com Deus! Doravante o homem buscará esconder-se de Deus, fugir do seu Criador. Nasce a ilusão imbecil de que para encontrar-se a si mesmo será necessário desencontrar-se de Deus, e afastar-se da sua presença. Deus passa a ser visto como um incômodo e um obstáculo à liberdade humana, uma ameaça à sua independência e maioridade!

Mas Deus continua querendo encontrar-se com o homem e pergunta: “Adão, onde estás?” (9) O Criador onipotente procura sua criatura rebelde e quer encontrar-se com ela. Um mistério constante e grande demais: Ele, infinito e eterno, nos quer, finitos e mortais, mais do que nós o queremos! Ele toma a iniciativa misericordiosa de vir ao nosso encontro e nos resgatar. E a resposta de Adão é muito significativa: “Ouvi teu passo no jardim, tive medo porque estou nu, e me escondi” (10). Ah, irmãos, o homem que antes espontaneamente amava o seu Senhor agora Dele tem medo! Não querer andar na sua presença e Dele se esconde porque se sente invadido na sua privacidade. Não quer mais encontrar-se com ele, prefere o desencontro. O homem tem medo de Deus… O amor transmutou-se em temor. Por isso é necessário repetir sempre a exortação do apóstolo João: “Não há temor no amor, ao contrário: o perfeito amor lança fora o temor” (1Jo 4,18). Aqui assistimos o contrário, o temor lança fora o amor. O homem já não sabe amar naturalmente a Deus, mas tem medo Dele e se sente nu diante dos seus olhos! As conseqüências são: vazio interior, desigualdade entre o homem e a mulher, opressão, violência, corrupção, ódio, guerras e mortes. Esta é a verdadeira imagem da humanidade de todos os tempos, também de hoje. Percebemos nitidamente o quanto os homens têm medo de Deus e, por isso, o amam pouco; Dele se afastam e se perdem nas suas próprias maldades!
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Muitos dos nossos governantes têm medo de Deus, da religião que o prega, e não querem encontrar-se com Ele. Querem banir Deus do discurso e das atitudes políticas, não suportam sequer os sinais de Deus, não querem símbolos e sinais religiosos em repartições públicas. Distorcem o conceito positivo de Estado laico e são intolerantes às expressões religiosas. É mais cômodo governar criando as próprias leis do que ter que obedecer a lei de Deus escrita na consciência. Legislam e executam acima do que poderiam: legalizam o aborto, a eutanásia, o consumo de drogas, tornam legal o que destrói e mata a dignidade do homem. Corrompem e se deixam corromper. Fazem do ser humano um meio e não o fim, uma peça na engrenagem da máquina econômica. Preferem fechar os olhos diante dos sofrimentos do povo, da chaga social das drogas e diante de outras tantas desordens para pensar alcançar seus próprios interesses. Penso em tantos políticos que só rezam e se encontram com os pobres em época de campanha, que não querem bem a pessoa, mas querem bem ao seu voto. Homens de muitas promessas e de poucas atitudes. Penso, ainda, nas famílias, crianças e jovens, conhecidos meus, dos distritos diamantinos que quase não se sentem diamantinenses e são visitados e abraçados pelos políticos a cada quadriênio. Penso nas periferias da nossa cidade… Penso no caos da saúde pública, na debilidade da educação, na falta de saneamento básico…
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Muitos intelectuais têm medo de Deus. Escondem-se atrás de tantas teorias, do ateísmo e do agnosticismo. Para que a soberba do racionalismo vigore é melhor que Deus não exista ou não interfira na história. Substituir a fé em Deus por uma construção teórica é uma opção confortável, mas suportar o drama da vida sem Deus é algo pesado demais, angustiante. Penso em tantos jovens universitários quem em nossa Diamantina, balançados por muitas teorias que a história já se encarregou de desmascarar, se desencontram de Deus, perdem a alegria verdadeira e a fé que nutriram de seus pais. Penso no Conselho Federal de Medicina defendendo a legalização do aborto até a 12ª semana de gestação, três meses de gravidez (!), em respeito à autonomia da mulher! Irmãos, um mundo de desencontros! Quem deveria defender a vida, defende a morte de um ser inocente, e justifica o injustificável com a ideologia de uma liberdade sem limites.
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Muitos casais têm medo de Deus. Longe de Deus é possível viver uma relação menos comprometedora, mais aberta, dissolúvel, que acaba quando começam as dificuldades. É possível, sem constrangimento de consciência, um controle utilitário da natalidade. É possível, ainda, a terceirização da educação dos filhos. Penso em tantos jovens casais que já não querem o sacramento do matrimônio, em tantos casados que se separam por questões superáveis. Penso em tantos filhos que vivem o sofrimento da separação dos pais e a desestruturação da família.
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Muitos jovens têm medo de Deus. Sentem a ilusão da liberdade sem limites e se escondem de Deus. E acabam por experimentar um grande vazio interior, a perda da esperança, a escravidão do álcool, das drogas, do prazer desenfreado, do consumismo e do culto ao corpo. Penso em tantos jovens, conhecidos de rosto, de nome, de endereço, que perdem a beleza e o vigor da juventude em caminhos que de tão largos se tornam estreitos.
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Muitos de nós sacerdotes, consagrados, batizados, temos medo de Deus e vivemos uma religião do desencontro. Vivemos de práticas de piedade, mas temos o coração endurecido para o perdão e a misericórdia, falamos muito e fazemos pouco, multiplicamos palavras e subtraímos testemunho. Falamos de Deus e nos afastamos dos irmãos mais pobres e necessitados, como se fosse possível servir a Deus sem servir ao irmão. O Papa Francisco, falando aos cardeais disse algo grave e verdadeiro: é possível ser sacerdote, bispo, cardeal e até mesmo papa sem ser discípulo de Jesus Cristo. Penso na Igreja em muitas regiões do mundo desacreditada por causa do mau comportamento de seus representantes. Penso em tantas pessoas que se afastam de Deus ou não se encontram com Ele por causa do nosso contra-testemunho de pastores e fieis batizados.
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Quanto desejo de fugir de Deus, de desencontrar-se com Ele! Todos nós já experimentamos, alguma dia, o desejo de escondermos de Deus. Talvez por isso nos é tão querido o Salmo 138 que diz: “Senhor, vós me sondais e conheceis, sabeis quando me sento ou me levanto; de longe penetrais meus pensamentos, percebeis quando me deito e quando eu ando, os meus caminhos vos são todos conhecidos. Em que lugar me ocultarei de vosso espírito? E para onde fugirei de vossa face? Se eu subir até os céus, ali estais; se eu descer até o abismo, estais presente. Se a aurora me emprestar as suas asas, para eu voar e habitar no fim dos mares; mesmo lá vai me guiar a vossa mão e segurar-me com firmeza a vossa destra. Se eu pensasse: ‘A escuridão venha esconder-me e que a luz ao meu redor se faça noite!’ Mesmo as trevas para vós não são escuras, a própria noite resplandece como o dia e a escuridão é tão brilhante como a luz”. Uma versão popular deste salmo nos leva a cantar: “Para onde irei, para onde fugirei?” Todos já experimentamos este desejo de fugir dos olhos de Deus: Omnia nuda et aperta sunt ante óculos eius! Depois do pecado original perdemos a capacidade de ver misericórdia e amor no olhar de Deus e só vemos nele juízo e condenação. Isso tem conseqüências graves para a fé e a vida da religião! Muitas pessoas não conhecem o olhar verdadeiro de Deus, nunca o contemplaram nos olhos! Têm uma imagem distorcida de Deus e por isso têm medo dele e da sua Igreja!
Quanto medo de Deus encontramos no mundo! Depois do pecado original, o primeiro desencontro da humanidade, amar a Deus e servi-lo com alegria não é um estado natural, mas exige força e disposição. Encontrar-se com Deus e ter fé em sua pessoa não é natural e espontâneo, porque exige uma verdadeira revolução interior. A única revolução necessária para a transformação do mundo é a do coração! E quão difícil é esta revolução! Tudo depende dela! E na sua condição está um encontro… Não é possível a revolução do coração e conseqüente a transformação do mundo sem o encontro com Deus! Deste encontro depende a salvação do mundo! E ele está bem simbolizado diante dos nossos olhos nas imagens que contemplamos.
Estamos diante de Jesus e Maria e de um encontro capaz de desfazer o desencontro primordial da humanidade com seus conseqüentes desencontros. Em Jesus, divindade e humanidade se misturam; em Maria, a beleza da graça divina resplandece sem igual. É Ele o novo Adão e ela a nova Eva num encontro harmonioso. Nos diz o apóstolo Paulo: “Por meio de um só homem, Adão, o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte… Porém com maior profusão a graça de Deus se derramaram sobre todos em um só homem, Jesus Cristo… Como pela desobediência de um só homem, todos se tornaram pecadores, assim, pela obediência de um só, todos se tornaram justos” (Rm 5,12ss). Com Cristo temos a novidade: “onde abundou o pecado, a graça superabundou!” Onde reinava a morte, impera a vida! Onde havia só desencontros, um encontro tudo renovou!
Irmão e irmãs, contemplemos Jesus, novo Adão. Ele é o homem definitivo, no qual o projeto de Deus se realizou plenamente. O projeto de Deus para o mundo, fracassado pela desobediência de Adão é realizado plenamente em Jesus Cristo. Ele é o homem em profunda harmonia consigo mesmo, com os outros, com o mundo e com Deus. Sua vida é feita de encontros: consigo mesmo, no silêncio e na meditação; com Deus, nas longas noites de vigílias e oração sobre o monte; com os irmãos, no toque curador, nas palavras cheias de misericórdia, no abraço afetuoso, na benção generosa, na refeição com os pobres e pecadores; com o mundo, acalmando as tempestades e desordens naturais, expulsando os demônios. No velho Adão o desencontro, no Novo Adão o encontro perfeito com Deus e com os irmãos.
Irmãos e irmãs, contemplemos Maria, a nova Eva. Ela é primeira na ordem da graça, é a mulher nova, criatura livre do pecado, tal como Deus havia sonhado. A primeira Eva, gerou-nos para o pecado, a segunda gerou-nos para a graça. Enquanto aquela respondeu a Deus com a desobediência, esta “respondeu com a “obediência da fé”, certa de que “nada é impossível a Deus”: “Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,37-38). Como diz Santo Irineu, “obedecendo, se fez causa de salvação tanto para si como para todo o gênero humano”. Do mesmo modo, não poucos antigos Padres dizem com ele: “O nó da desobediência de Eva foi desfeito pela obediência de Maria; o que a virgem Eva ligou pela incredulidade a virgem Maria desligou pela fé”. Comparando Maria com Eva, chamam Maria de “mãe dos viventes” e com freqüência afirmam: “Veio a morte por Eva e a vida por Maria” (CIC 494). Portanto, Maria, “Foi que, primeiro e de uma forma única, se beneficiou da vitória sobre o pecado conquistada por Cristo: ela foi preservada de toda mancha do pecado original e durante toda a vida terrestre, por uma graça especial de Deus, não cometeu nenhuma espécie de pecado” (CIC 411). Maria é a nova “mãe dos viventes”, a Mulher por excelência, mãe do Cristo total, Cabeça e membros. A vida de Maria, tal como a do Filho, Jesus, é feita só de encontros: consigo mesma, na meditação silenciosa; com Deus, na oração; com os irmãos, na intercessão e no serviço; com o mundo, apontando-lhe a salvação.
A vida de Jesus e Maria é tecida de encontros. Quantos encontros bonitos tiveram entre si. Quando Maria perdeu Jesus por três dias, em Jerusalém, ficou aflita e só recuperou a paz quando o reencontrou no Templo. Juntos rezaram tantas vezes, ouviram a Lei de Deus na pequena sinagoga de Nazaré, compartilharam as intimidades do coração e da alma ao redor da mesa em seu lar. Depois que Jesus deixou sua casa para tornar-se um pregador itinerante podemos imaginar os encontros que teve com Maria, sua mãe. Que alegria Maria deve ter sentido ao encontrar Jesus curando os doentes, perdoando os pecadores, enfim, renovando a esperança dos pobres de Israel. Tantos encontros significativos, no entanto nenhum encontro vivido até agora se compara a este. A mãe encontra o filho num estado lastimável, quase irreconhecível. Nas palavras do profeta Isaías: “Não tinha beleza nem atrativo para o olharmos, não tinha aparência que nos agradasse. Era desprezado como o último dos mortais, homem coberto de dores, cheio de sofrimentos; passando por ele, tapávamos o rosto; tão desprezível era, não fazíamos caso dele. (…) Foi maltratado, e submeteu-se, não abriu a boca; como cordeiro levado ao matadouro ou como ovelha diante dos que a tosquiam, ele não abriu a boca. Foi atormentado pela angústia e foi condenado” (53, 3.7). Que sofrimento para a mãe ver o filho em tal estado: havia perdido a aparência humana! A mãe fixa os olhos em seu filho querido! Maria representa a humanidade que não tem medo de olhar nos olhos de Deus! A mãe quer correr para abraçar e beijar o filho, mas a guarda romana não permite. Seus corpos não podem encontrar-se no abraço, mas suas almas estão unidas no sofrimento redentor. Seus corações palpitam em sintonia. Maria não pode sussurrar palavra alguma ao ouvido do filho, mas com seu olhar firme o encoraja: Filho, espera no Senhor! Sê forte, espera no Senhor! (Sl 26,14). Como é terrivelmente triste para uma mãe ver seu filho desprezado, torturado e às portas de uma morte violenta…
Por um instante Jesus ergue seus olhos e contempla sua mãe amada. Estes sãos os verdadeiros olhos de Deus! Olhos que choram por causa do sofrimento humano! Muitas vezes os evangelhos falam do olhar de Jesus para com os pecadores, recordamos a passagem do jovem rico: “olhando-o, Jesus o amou (intuitus eum dilexit) (Mc 10,21). O lema do Papa Francisco traduz bem este olhar de Cristo: miserando atque eligendo, que quer dizer: “olhando com amor o escolheu”. No olhar de Deus não existe condenação, meus irmãos, mas só amor e misericórdia! Erguendo os olhos amorosos, Jesus vê sua mãe repleta de lágrimas, mas firme. O olhar dos dois se encontra. Em Maria o olhar das criaturas é renovado pelo olhar do Criador! Como diz o poeta, (Fernando Pessoa): “Ah, mas se ela adivinhasse, / Se pudesse ouvir o olhar…”. De certa forma Maria escuta o olhar de Jesus. É como se lhe dissesse: Mãe, “é chegada a hora”, “minha alma está conturbada. Porém, que direi? Pai, salva-me desta hora? Mas foi precisamente para esta hora que eu vim ao mundo” ! (Jo 12, 27). Foi para chegar a esta hora que desci dos céus e me fiz homem em seu seio virginal!
São instantes eternos estes nos quais mãe e filho trocam olhares. Nestes olhares lacrimosos estão resumidos todos os olhares de sofrimento de todos os homens e mulheres da terra em todos os tempos. Onde sofre um ser humano, Cristo continua a sofrer nele! Onde chora alguma mãe, Maria continua a chorar nela! Por isso disse Jesus: Em verdade vos digo: cada vez que fizerdes o bem a um dos pequeninos, matando a fome do faminto, a sede do sedento, acolhendo um forasteiro, vestindo um nu, visitando um doente e vendo um prisioneiro, será a mim mesmo que o farás! (cf. Mt 25,40) Irmãos e irmãs, queremos consolar Maria em suas dores? Queremos aliviar os sofrimentos de nosso amado Cristo? Não temos outro caminho senão enxugar as lágrimas uns dos outros, e correr apressadamente ao encontro dos irmãos mais necessitados. Não há encontro com Deus, sem encontro com o próximo, não nos iludamos! Lembra-nos João, o discípulo amado: “Se alguém disser: ‘Amo a Deus’, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso: pois que não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também seu irmão (1Jo 4,20s). De fato, o termômetro para saber o nosso grau de amor a Deus é nosso amor aos irmãos mais fracos e pecadores, é nossa capacidade de enfrentar e aliviar os sofrimentos alheios.
No mundo de prevalentes desencontros, existem muitos que se encontram realmente com Deus e com os irmãos. Penso nos casais, idosos, jovens e crianças que enchem nossas igrejas a cada domingo. Penso nas centenas de pessoas que se deixaram reconciliar com Deus nos mutirões de confissão em nossas paróquias, dos cerca de 150 universitários que se confessaram há dois domingos atrás na catedral. Penso nos voluntários no Hospital, na Santa casa, em nossos asilos Pão de Santo Antônio e Frederico Ozanan, na Sociedade Protetora da Infância: EPIL, AGIR, VEM, na APAE, Cáritas, Sociedade de São Vicente de Paulo, Núcleo do Câncer, Farmacinha da Paróquia, CAPS, no sonho da APAC que se aproxima, na Fazenda da Esperança a ser construída em nosso município, nos Conselhos Comunitários buscando melhorias de vida… Penso em tantas outras iniciativas de encontro com Deus e com os irmãos! Estes são espaços de encontro em um mundo de desencontros!
Queridos irmãos, volta à nossa mente a pergunta inicial. Para que esse encontro doloroso? Não seria melhor que ele não tivesse acontecido? Que mãe e filho fossem poupados deste sofrimento tão grande? Não, meus irmãos. Ai de nós se este encontro não tivesse acontecido! Nele se dissolve o desencontro primordial da humanidade. Este encontro sofrido ou este sofrimento encontrado dá um sentido novo aos nossos sofrimentos. À luz deste desta cena dolorosa o sofrimento se transforma em grande possibilidade de encontro com Deus e com os irmãos. Sim, o sofrimento nos aproxima de Deus e uns dos outros. Por isso nos ensina Guimarães Rosa: “É preciso sofrer, depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado”. Essa é a lição deixada a nós por Jesus e Maria, Mãe e Filho que se fitam: não é possível amar sem sofrer, ainda que seja possível sofrer sem amar… Sofrimento sem amor é desperdício! Sofrer de amor e por amor é participar da redenção do mundo! “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos”, disse e cumpriu Jesus (Jo 15,13).
Meus amados irmãos, precisamos nos encontrar com Deus de verdade! A vida ganha sentido e beleza quando cruzamos o nosso olhar com o olhar amoroso de Jesus e através deste gesto conseguimos olhar com amor nos olhos uns dos outros. Assim, nossa fé se torna autêntica; desaparece do nosso coração o medo de Deus e a tentação de se esconder Dele. Nasce um anseio de encontro com Deus e com os irmãos.
Num instante de silêncio vamos rezar pedindo a Deus que não fujamos dos nossos sofrimentos e que saibamos através deles fazer uma experiência do amor que lança fora todo temor divino e humano.

Pe. Júlio César Morais

Pároco da Catedral
Fonte: https://josantosdtna.wordpress.com/2013/05/18/sermao-do-encontro-semana-santa-diamantina-mg-2013/

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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