terça-feira, 11 de abril de 2017

É Noite!

Os Evangelhos são extremamente sóbrios à respeito da vida de Jesus. Se olharmos
o tamanho deles, para uma vida tão importante, uma vida tão significativa, eles são realmente
muito pequenos.
E outro enigma desses Evangelhos, apesar deles serem breves, é que, chegando o
momento da paixão, parece que há uma desproporção. Para praticamente dois dias da
vida de Jesus, o Evangelho dedica uma parte enorme. Por que isso? Porque desde o
início os cristãos ficaram tão preocupados com a morte de Jesus que desceram a pormenores,
como vocês podem ver: um galo que canta, o nome do soldado, um corta a
orelha. Pormenores mínimos, enquanto outras verdades profundíssimas da vida de Jesus
ficaram sem ser relatadas. É que, certamente, a comunidade primitiva ficou totalmente
deslocada, perdida, confusa com esse mistério. Como é possível que o Filho de Deus
tenha sofrido tanto, tenha chegado a esse nível de extrema humanidade, de carregar no
seu corpo tanto sofrimento? Uma pergunta que nós não sabemos responder.
Mas, certamente, apesar da nossa sensibilidade mostrar, de sentirmos compaixão
por Jesus e acompanhá-Lo em suas dores, apesar de estarmos mais recolhidos, rezarmos
mais – tudo isso é belíssimo - não é esse o sentido da paixão de Jesus. Ele não sofreu
para que tivéssemos compaixão por Ele. É o inverso e essa é a maravilha. Antes estávamos
nós no sofrimento, estávamos nós perdidos na escuridão dessa noite. Antes, nós
sim, estávamos confusos. Ele quando olhou para a humanidade disse: “Pobre humanidade!
Não sabem para onde vão, não sabem de onde vieram, não sabem porque sofrem
e ficam desesperados”. Muitos se suicidam. Como se matam pessoas entre nós!E Ele
disse: “Não vou deixar a humanidade assim tão perdida, não vou deixar a humanidade
tão desvairada, não vou deixar a humanidade sem uma luz que a ilumine. Eu vou descer
até o extremo do sofrimento e vou dizer: lá no extremo do sofrimento está Deus!”. Esse
é o grande mistério: lá no extremo do sofrimento está Deus! Não está a doença, não está
o câncer, não está a ausência, não está a morte. Está Deus! Quando vamos a um hospital e
vemos tantas pessoas sofrendo, no extremo do sofrimento, não está a medicina, não está
o médico, não estão as lágrimas, não está o desespero humano, não está a tristeza - está
Deus. Se não fosse para isso, Ele não teria sofrido tanto. Ele quer nos tomar lá em baixo
para que possamos subir. Nós somos tão fracos, temos a cabeça tão pequena! Nós não
entendemos as coisas. Se eu apenas falasse como eu estou falando, ninguém acreditaria.
Se fossem palavras de profetas, também ninguém acreditaria. Nós precisamos ver com
os olhos, e Ele quis que víssemos com os olhos. Ele assumiu uma carne palpável, um
corpo visível, um rosto captável. Pés que andavam, percorrendo cada canto da Palestina.
Ele foi se revelando no modo de olhar, no que dizia, respondendo e agindo.
Quando parecia tudo maravilhoso na vida Dele, alguém dizia: “Ah, que vida bonita!
Até eu queria ser Jesus, fazendo milagres, transformando água em vinho. Festejando,
conversando com Marta, com Maria, acolhendo Madalena. Oh, que coisa maravilhosa!
Até eu queria ser Filho de Deus assim”. O povo aclamando-O, montado num jumentiÉ
NOITE! (Jo 13, 21-33)
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nho. As crianças abrançando o altar da Sua existência. Assim valia a pena ser Jesus!
Mas Ele não quis nos dar a ilusão de que o Filho de Deus veio para passear na Terra,
fazer um grande piquenique, festejar a sua glória, a sua beleza. Não, Ele veio dar sentido
a nossa vida, sabendo que ela passa por momentos difíceis. Ele sabe que todos nós, sem
exceção, vamos, algum dia, conhecer uma noite muito escura. E vocês, notem bem que
hoje no Evangelho fala-se várias vezes de escuridão.
Talvez o que mais me comova sejam duas palavrinhas. Quando Judas sai do Cenáculo
João, o evangelista, diz assim: ‘É noite!’. Nada mais. Não explicou, não precisou dizer
mais nada. Olha que noite deveria ser: a noite do coração de Judas, a noite do coração
de Jesus, a noite do coração dos colegas, a noite da traição. Quem um dia experimentou
a traição sabe que noite é essa. Traição na família, traição do amor de um filho, traição
do amor de um esposo. Quem um dia experimentou a traição sabe o que significa a frase:
“É noite!”. E Jesus a experimentou. Ele não experimentou a traição de uma mulher porque
não era casado, mas experimentou a infidelidade de alguém que era mais que filho.
Era escolhido por Ele para segui-Lo ao longo de Sua vida, para ser um grande apóstolo.
Seria São Judas, não só o Tadeu, mas Judas Iscariotes, um grande missionário. Não quis.
“É noite!”. Quando Ele foi crucificado, dizem os sinóticos que baixou em toda a Terra
– claro que é simbólico - uma noite escura. Não foi a noite da ausência de sol. O sol
continuou brilhando. Foi o sol da vida que escureceu. O sol de todas as alegrias, o sol de
todas as esperanças que pareciam desaparecer para, no dia seguinte, esplendorosamente,
romper as trevas definitivas da nossa história.
Só Ele foi capaz de fazer isso. Depois de Jesus, depois que Ele desceu à Terra,
nenhum de nós tem direito de revoltar-se e dizer: “Deus, porque fizestes isso comigo?”
O Filho mostrou que quando nós estamos no extremo do sofrimento lá está Deus
Pai. Por isso a esperança nunca morre, porque toda noite termina na luz da madrugada.

Amém.(2001)

João Batista Libânio

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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