sábado, 18 de março de 2017

A Samaritana e Jesus

Texto Evangelho: Jo 4,5-42
“Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te diz:dá-me de beber, seria tu que lhe pedirias, e ele te daria água viva”
Seguindo nosso itinerário quaresmal, hoje, temos a oportunidade de refletirmos o encontro que dignifica a dignidade humana e qualifica o mistério da redenção oferecido na cruz a todos nós. Passar pela tentação (1º Domingo) e pela transfiguração (2º domingo) é escolher viver a dinâmica do evangelho desse domingo. Ele que quando praticado, sem dicotomia com dos outros domingos, plenifica o cristianismo que somos chamados a viver.
Jesus chega naquela pequena cidade, já cansado da viagem e senta ao poço de Jacó. Logo chega uma mulher desconhecida e sem nome, sabe-se que é uma samaritana. Jesus inicia o diálogo pedindo o que beber.
Uma pergunta inusitada tanto para a samaritana como para nós. Para a samaritana e para todo o povo de Israel era imaginável um diálogo de um judeu com uma samaritana (primeiro por ela ser mulher, segundo que os samaritanos eram vistos como povo impuro e desprezível). Para nós o fato inusitado é que Jesus se apresenta como ser necessitado, precisa de água para beber e busca naquela mulher o auxílio para saciar sua sede. Jesus não age com arrogância e superioridade talvez aí está a palavra chave deste evangelho: a humanidade.
Ao estabelecer o diálogo, Jesus logo expressa seu desejo: “se compreendesse o dom de Deus”, se soubesses que Deus oferece seu amor salvador gratuitamente. Todavia a mulher não experimentou nada gratuito em sua vida – a água tem que ser extraída do poço com esforço. O amor de seus maridos foi se apagando um depois do outro.
Desperta na mulher o anseio de vida plena ao ouvir sobre a água que acalma a sede para sempre, o manancial interior. Que no fundo é a sede de cada um de nós. Não apenas sede de Deus, mas sede de amor! Todos de uma forma ou de outra procuramos ser amados! Com essa mulher não foi diferente, conosco não é diferente! Ás vezes ainda como a samaritana não encontramos aquilo que trará verdadeiramente sentido para nossa vida. Talvez estejamos como zumbis perambulando, ainda procurando o verdadeiro amor.
Jesus não recrimina a mulher por causa de sua vida passada, Jesus conhece a vida dela. Assim desperta no coração dela a seguinte pergunta: “Será esse messias?”
Naa nossa prática pastoral, não é diferente, devemos acolher a todos com os olhos de Jesus. E mais do que isso, como Jesus devemos sentar no poço para escutar os outros, com suas alegrias e também com seus sofrimentos, angústias, dores e até mesmo sua solidão. Quando deixamos de fazer isto estamos jogando o “balde” da vida das pessoas poço adentro. Deixamos de ser humanos “humanizados” e preocupamos demais com nosso mundinho, com nosso subjetivismo ou até mesmo com julgamentos para que a nossa “ajuda” seja ao menos na nossa consciência seja abrandada da culpa.
Se nós perdermos essa consciência, corremos o risco de ofertar tudo para as pessoas mais nunca aquilo que elas querem de nós: Deus. Como faremos isso? Olhando nos olhos e dizer, se preciso for com palavras, que para Deus ela é importante. Que diante do olhar de Deus ela nunca foi esquecida, mas antes amada! A capacidade de olhar nos olhos permite uma transcendência de rito por rito, esvazia o orgulho humano e enaltece a presença de Deus. Resgata o humano de suas solidões. Permita que seu olhar se encontre com o olhar de Deus, pois nenhum ser humano fica longe da ternura de Deus. Nesta capela partilhamos e confirmamos a salvação que nos é oferecida no cotidiano de nossa vida. Compreendemos, então, outra indagação do evangelho: aonde adorar?
Os judeus peregrinam a Jerusalém para adorar. Os samaritanos sobem até o monte Garizim, cujo cume se divisa justamente no poço de Jacó.. Jesus começa esclarecendo que o verdadeiro culto não depende de um lugar determinado, Ele não está preso a um amontoado de tijolos e muito menos manipulado pelo homem. Por isso, não é necessário subir em uma montanha para aproximar-se de um Deus longínquo, que não se preocupa com nossos problemas e sofrimentos. O espaço físico, seja ele o seminário, a Igreja ou até o nosso próprio quarto, só será capaz de contribuir para a nossa oração, se antes nossa vida for uma oração por si própria. O Pai está buscando adoradores! Aqueles que não param nas adorações externas, mas se interpelam delas para buscar um coração simples que seja capaz de reconhecer-se necessário de Deus a cada instante, sem nenhuma alienação da realidade.
Que essa quaresma, seja para todos nós, momento para escancarar nosso coração e elevar uma prece ao Deus que é fonte de vida, para que sua água viva nos revigore e permita que sejamos canais para a manifestação plena de Deus para nós e para aqueles que nos procuram.

Que Maria nos ensine, assim como a samaritana a encontrarmos com Jesus Cristo e a partir do encontro com Ele, ter a vida transformada pela fé no ressuscitado!

Reflexão feita no Seminário Arquidiocesano no dia 16 de março de 2017
Colaborações: Luciano Nascimento e Pagola

Um comentário:

  1. Realmente, todos buscamos o amor e ser amado, mas nem sempre temos a humildade e a sensibilidade de senti-lo muito próximo de nós... Excelente reflexão!
    Abraço.

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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