domingo, 20 de novembro de 2016

Cristo Rei do Universo

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 23, 35-43)

O povo permanecia ali, a observar; e os chefes zombavam, dizendo: «Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.» Os soldados também troçavam dele. Aproximando-se para lhe oferecerem vinagre, diziam: «Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo!» E por cima dele havia uma inscrição: «Este é o rei dos judeus.»

Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: «Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também.» Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: «Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas ações mereciam; mas Ele nada praticou de condenável.» E acrescentou: «Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino.» Ele respondeu-lhe: «Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.»

Contexto do aparecimento desta Festa

A «Festa de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei» foi instituída pelo Papa Pio XI, em 11 de Dezembro de 1925, com a Carta Encíclica Quas Primas. Os tempos apresentavam-se sombrios e turvos e os céus nublados como os de hoje, e Pio XI, homem de ação, que já tinha fundado a Ação Católica em 1922, instituiu então esta Festa com o intuito de promover a militância católica e ajudar a sociedade a revestir-se de valores cristãos. A Festa de Cristo Rei era então celebrada no último Domingo de Outubro. A reorganização da Liturgia no pós-Concílio passou esta Festa para o último Domingo do Ano Litúrgico, com o título de «Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo».

Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei

O título de Rei pode parecer um título ultrapassado e com forte conotação ideológica, que poria Jesus ao nível dos senhores ricos e poderosos deste mundo. Para não resvalarmos para equívocos e terrenos movediços, convém anotar desde já a descrição que o próprio Jesus faz dos Reis: «Os Reis das nações, diz Jesus, dominam sobre elas» (Lucas 22,25). E a sua advertência: «Não seja assim entre vós» (Lucas 22,26). E, todavia, Jesus diz-se Rei, confirmando, neste domínio, as suspeitas de Pilatos (Marcos 15,2; João 18,37).

Para sabermos o que é que Jesus tem em vista quando se afirma como Rei, é preciso saber como é que a Escritura traça o perfil do Rei. É como quem pinta um quadro, ou melhor, dois: um díptico. No primeiro quadro, o Rei é alguém muito próximo de Deus, completamente nas mãos de Deus, sempre atento à sua Palavra, de modo que deve ter, para seu uso pessoal, uma cópia da Lei de Deus, feita pela sua própria mão, para não poder dizer que não entende a letra, e deve lê-la todos os dias, nada fazendo por sua conta, mas sempre e só de acordo com a Palavra de Deus (Deuteronômio 17,18-19). No segundo quadro, que completa o primeiro, formando um díptico, o Rei é alguém muito próximo do seu povo, sempre atento ao seu povo, em ordem a levar-lhe a prosperidade, o bem-estar, a saúde, a paz, a alegria, a felicidade, a salvação. Aí está, então, o retrato completo de Jesus Cristo como Rei: sempre pertinho de Deus, sempre pertinho de nós de que o seu reino seria eterno e universal.

Estamos no Calvário. Jesus está pregado na cruz. Ao seu lado estão dois bandidos. Em cima da cabeça tem colocada uma tabuleta que diz: “Este é o Rei dos judeus” (v. 38). Mas como? Então era este o esperado filho de David?

Não, não é possível. Este é apenas um pobre desgraçado. Onde estão os sinais da realeza? Ele não domina do alto do seu trono, está pregado numa cruz de madeira; não está rodeado de servos que o servem e que se inclinam a seus pés; não há soldados prontos a dobrar a cabeça a todas as suas ordens; diante dele há pessoas que o insultam e fazem pouco dele; não se veste de hábitos luxuosos e está completamente nu. Não ameaça ninguém, mas usa palavras de amor e de perdão para com todos.

Que estranha a realeza de Cristo! É exatamente o contrário do que os homens estão habituados a imaginar. A inscrição colocada na cruz proclama “Rei dos judeus” um homem derrotado, incapaz de se defender, privado de qualquer poder. Um rei assim deita por terra todos os nossos projetos. Volta então insistentemente a pergunta: “Como é possível que seja este o Messias prometido?”. Vejamos mais de perto as três cenas descritas no Evangelho deste Domingo.

A primeira (vv. 35-37)

Apresenta-nos três grupos de pessoas que estão aos pés da cruz, ao pé do “rei".

Antes de mais o povo. Como se comporta? Não faz nada, nem bem nem mal: está ali a observar (v. 35). Não compreende como é que um homem que morre sem reagir pode ser o rei tão esperado. É um homem justo, mas então por que é que Deus não intervém para o salvar? Este povo pode representar toda a gente de boa vontade que também hoje gostaria de compreender o projeto revolucionário de Deus, mas não o consegue porque os que o deveriam iluminar são, também eles, cegos que, porventura sem saberem o que fazem, se opõem a este projeto.

Além do povo, junto à cruz estão os chefes. Eis os verdadeiros responsáveis. Escarnecem de Jesus por não ser o rei que lhes agrada, por ser derrotado, ser incapaz de se salvar a si mesmo, por não descer da cruz (v. 35). Não há dúvida: se Jesus descesse da cruz, todos acreditariam. Mas acreditariam em quê? Acreditariam no Deus forte e poderoso, no Deus que derrota e humilha os próprios inimigos, que responde com prodígios às provocações dos ímpios, que incute temor e respeito, que não brinca em serviço... E este não é o Deus de Jesus. Se descesse da cruz Jesus confirmaria que o verdadeiro Deus é o que os poderosos deste mundo sempre adoraram porque é semelhante a eles: forte, arrogante, opressor, vingativo e armado. O Deus de Jesus revelado na cruz é o Deus que ama a todos, mesmo quem o combate, que perdoa sempre, que salva, que se deixa trespassar de amor. Deus não é omnipotente no sentido de que pode fazer o que quer com o seu poder imenso, mas porque ama de maneira imensa, porque se coloca sem limites e sem condições ao serviço do homem. A sua não é a omnipotência do domínio mas do serviço.

O terceiro grupo que está aos pés da cruz é composto por soldados. Trata-se de pobres homens arrancados à própria família e mandados, por pouco dinheiro, a cometer violências. Perderam todos os sentimentos humanos e vingam-se num pobre homem mais fraco do que eles. Mais que culpados são vítimas da loucura de outros superiores a eles. Eles sabem apenas executar ordens, não podem manifestar a sua opinião, mas repetem as palavras que ouviram dos chefes: “Se és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo” (v. 36).

A segunda cena (v. 38)

No centro do Evangelho deste Domingo está a escrita colocada sobre a cabeça de Jesus. Lucas parece dirigir um convite aos cristãos das suas e das nossas comunidades no sentido de contemplarem o rei pregado na cruz! Diante dele, torna-se ridícula toda a ânsia de glória da nossa parte, toda a vontade de domínio, todo o desejo de chegar aos primeiros lugares, de receber aplausos, obter aprovações, títulos honoríficos. Do alto da cruz, Jesus indica a todos quem é o rei que Deus escolheu: é aquele que aceita a humilhação, é aquele que sabe que a única maneira de dar glória a Deus é descer até ao último lugar para servir o pobre.

A terceira cena (vv. 39-43)

Ao pé da cruz encontram-se uma série de pessoas desiludidas: o povo, os chefes, os soldados, um bandido. Todos estão desiludidos menos um: o segundo malfeitor. Este é o único que reconhece em Jesus o rei esperado: “Jesus, lembra-te de mim quando vieres com a tua realeza”. Chama-o pelo nome. Compreende que com ele pode ter confiança: sente que ele é amigo, amido de quem errou na vida. De Jesus não espera uma libertação milagrosa, pede apenas para dar com ele os últimos passos da vida, da vida que tinha sido uma sucessão de erros e de crimes. E Jesus promete-lhe: “Hoje estarás comigo no Paraíso”. A história deste homem é a história de cada um de nós. Quem de nós nunca se comportou como um malfeitor, não estragou a vida de um irmão, não provocou pequenos ou grandes desastres na sociedade, na família, na comunidade cristã? Mas não estamos sós. Temos Jesus que nos acompanha; por isso o nosso caminho acabará certamente no Paraíso.

O processo contra quem matou Jesus não será reaberto. Jesus pronunciou já o seu juízo definitivo: absolveu os seus algozes, perdoando-os, salvou-os no momento mais glorioso da sua vida, ou seja, quando, na cruz, manifestou ao máximo o seu amor. Este soberano que reina do alto da cruz perturba-nos porque exige uma mudança radical nas nossas opções de vida. Exige, por exemplo, que ofereçamos o perdão incondicional a todos os que nos fazem mal.

Nesta perspectiva, também o “juízo final” muda completamente de significado: despojados de todas as nossas misérias, mesquinhez e estreiteza de vistas que tornaram pesada a nossa mente e empederniram o nosso coração, curados da cegueira espiritual que nos impediu de compreender as Escrituras (Lc 24, 25), “contemplaremos o seu rosto” (Ap 22, 4), “vê-lo-emos como ele é” (1Jo 3, 2). Então, sim, estaremos em condições de pronunciar um “juízo” autêntico e objetivo sobre ele e, admirados, teremos de admitir que ele é muito “maior do que o nosso coração” (1Jo 3, 20).

Carregar com a Cruz

O relato da crucificação, proclamado na Festa do Cristo Rei, recorda aos seguidores de Jesus que o Seu reino não é um reino de glória e de poder, mas de serviço, amor e entrega total para resgatar o ser humano do mal, do pecado e da morte.

Habituados a proclamar a «vitória da Cruz», corremos o risco de esquecer que o Crucificado nada tem que ver com um falso triunfalismo que esvazia de conteúdo o gesto mais sublime de serviço humilde de Deus para com as Suas criaturas. A Cruz não é uma espécie de troféu que mostramos a outros com orgulho, mas o símbolo do Amor crucificado de Deus que nos convida a seguir o seu exemplo.

Cantamos, adoramos e beijamos a Cruz de Cristo porque no mais fundo do nosso ser sentimos a necessidade de dar graças a Deus pelo seu Amor insondável, mas sem esquecer que o primeiro que nos pede Jesus de forma insistente não é beijar a Cruz mas sim carregar com ela. E isso consiste simplesmente em seguir os seus passos de forma responsável e comprometida, sabendo que esse caminho nos levará mais tarde ou mais cedo a partilhar o seu destino doloroso.
Não nos está permitido aproximar-nos do mistério da Cruz de forma passiva, sem intenção alguma de carregar com ela. Por isso, temos de cuidar muito de certas celebrações que podem criar em torno da Cruz uma atmosfera atrativa mas perigosa, se nos distraem do seguir fielmente o Crucificado fazendo-nos viver a ilusão de um cristianismo sem Cruz. É precisamente ao beijar a Cruz quando temos de escutar o apelo de Jesus: «Se alguém vem detrás de mim… que carregue com a sua cruz e me siga».

Para os seguidores de Jesus, reivindicar a Cruz é aproximar-nos em espírito de serviço dos crucificados; introduzir justiça onde se abusa dos indefesos; reclamar compaixão onde só há indiferença ante os que sofrem. Isto irá trazer-nos conflitos, rejeição e sofrimento. Será a nossa forma humilde de carregar com a Cruz de Cristo.

O teólogo católico Johann Baptist Metz tem insistido no perigo de que a imagem do Crucificado nos esteja a ocultar o rosto de quem vive hoje crucificado. No cristianismo dos países do bem-estar está a ocorrer, segundo ele, um fenómeno muito grave: «A Cruz já não intranquiliza a ninguém, não tem nenhum aguilhão; perdeu a tensão do seguimento a Jesus, não chama a nenhuma responsabilidade, mas retira-nos dela».


Não teremos todos de rever qual a nossa verdadeira atitude ante o Crucificado? Não teremos de nos aproximarmos d'Ele de forma mais responsável e comprometida?

Fonte: Ordem do Carmo

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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