quarta-feira, 20 de abril de 2016

Amor e Sexo

A forma como a humanidade encara o amor e a sexualidade mudou ao longo do tempo. Apesar disso, continua-se buscando realizações sentimentais e satisfações sensoriais

Utilizada originalmente pelas ciências naturais para designar a atração entre dois elementos químicos diferentes, mas afins, a expressão afinidades eletivas ficou mais conhecida por dar título a um romance de Goethe, bastante reproduzido no último século tanto no cinema quanto em peças teatrais. Escrito em 1809, quando o autor já era um sexagenário, é possível que tal título tivesse a intenção de capturar a moderna sina humana "amor-desejo", responsável pelo pêndulo entre o imperativo de nossa natureza - que solicita e deseja, e o imperativo moral, que tanto pode nos constranger quanto nos dignificar - e nossa ânsia de reconhecimento amoroso.
É fato que por questionar repetidamente a tão esperada fidelidade, o idealizado casamento e o significado do amor, as paixões inesperadas desconstruiriam as expectativas de uma vida amorosa tranquila e pacífica e marcariam a complexidade de nossos desejos.
Goethe é considerado um ícone do romantismo alemão, movimento que trazia como novidade o acolhimento das contradições e antíteses e o fato de que nossas vidas não seriam ditadas somente pela razão, mas também pelo nosso estado d'alma. Afinal a razão, a luz com a qual poderíamos contar em nosso percurso moderno sem garantias transcendentais, sucumbiria, como nos ensinou Freud, aos desígnios mais crus de nossas tendências pulsionais. O mito do amor romântico pretendia embarcar nas políticas de felicidade que a modernidade prometia produzir ao apostar que em algum lugar do futuro cada um viveria sua história de amor com alguém especial.
Esse ideal de amor romântico, o amor verdadeiro, aquele cuja função deveria ser promover a junção entre sexo, amor e casamento, surge juntamente com os valores modernos pós-revolução francesa, que pretendiam transpor as barreiras das diferenças de direitos entre homens e mulheres, das diferenças culturais, de raça e de religião, dos preconceitos sociais, etc. Foi a partir daí que homens e mulheres passaram a escolher seus parceiros por amor, a construir roteiros, sensibilidades e aspirações amorosas diferentes, inspirando e ao mesmo tempo se alimentando de um vasto repertório de amor distribuído entre os romances, filmes, peças de teatro, novelas ou letras de músicas. Desde então, verdadeiras ou fictícias, as histórias de amor passaram a fascinar a todos e se perpetuaram através do tempo ao serem lidas e relidas, assistidas, lembradas ou citadas.
Parte integrante desse mito amoroso, a sexualidade humana, por seu caráter disruptivo, manteve- se durante grande parte da história ocidental como uma dimensão de nossas vidas que deveria ser acobertada, tendo como aval a ideologia judaico-cristã que condenava a carne e rejeitava suas paixões em proveito das coisas do espírito.
"A cultura de cada época delimita as possibilidades e impossibilidades, incentiva certas condutas e interdita outras para o convívio entre os humanos"
Sabe-se que a cultura de cada época delimita as possibilidades e impossibilidades, incentiva certas condutas e interdita outras para o convívio entre os humanos. As paixões despertadas pelo desejo rompiam com a moral da época de Goethe e tornavam trágica a busca pela realização amorosa romântica que não podia suportar a invasão das forças da natureza responsáveis pela atração irrefreável entre as pessoas.
Continuamos a buscar realizações sentimentais e satisfações sensoriais, mas a liberdade sexual que hoje usufruímos, decorrente da revolução sexual (leia quadro Nova ética da sexualidade), impensável mesmo há três ou quatro décadas atrás, incentiva a busca e não condena mais o prazer físico. Estamos, sob esse ponto de vista, mais livres para decidir sobre o que fazer (e como fazer) com os nossos corpos. Amor e sexo estão separados, ainda que possam compor várias melodias.
"Estamos mais livres para decidir o que fazer (e como) com nossos corpos. Amor e sexo estão separados, ainda que possam compor várias melodias"
Estável ou fortuito
O enigmático se deslocou de nossa sexualidade para nossos desejos. O ficar, prática que se consolidou entre os adolescentes e que hoje permeia as relações de todas as idades, abriu um espaço inusitado para relacionamentos passageiros, fortuitos, que não visam compromissos futuros e em que predomina a sensorialidade. Nem por isso deixou de existir o espaço privilegiado das relações amorosas que buscam um envolvimento mais efetivo entre os pares e por isso preveem uma confluência de interesses e desejos continuamente negociados. Apostando ainda em sua durabilidade, essas relações incluem a possibilidade de uma ruptura, caso haja a finitude de interesse de uma ou ambas as partes ou quando os pactos que a asseguravam se desfazem.
O remanejamento dos antigos códigos de convivência amorosa assegura uma liberdade maior a cada indivíduo, que hoje pode escolher entre um leque amplo de opções, aquilo que mais se afina com seus gostos ou estilo de viver, mas impõe, para a grande maioria, o luto do ideal de amor romântico, habitante velado ou declarado do íntimo de cada um.
É provável que as dores provocadas pela luta entre a manutenção deste anseio romântico e todos os sentimentos que o acompanham como o medo da perda, do abandono ou da traição, sejam reminiscências do romance infantil vivido por cada um em seu seio familiar. O amor incondicional imaginado durante os cuidados e acolhimento dos primeiros anos de vida transformaria cada um em narciso e marcaria um destino de busca para ser amado e admirado. Recuperar essa imagem de centro do mundo e de todas as atenções confunde-se com a promessa do romantismo amoroso que assim parece legitimar a expectativa de satisfação sexual e sentimental e a busca de um parceiro que devolva esse olhar que se espera poder amparar e confortar.
Se a desconstrução das antigas referências radicalizou a autonomia e a liberdade para cada um escolher e viver sua vida amorosa, também aumentou as incertezas e a dependência de um olhar amoroso, o que desvenda a vulnerabilidade aos fracassos e ao sentimento de impotência. O sucesso ansiado da vida amorosa passa a depender de um investimento infinito das partes envolvidas, mas principalmente da possibilidade de cada uma destas partes atribuir ao outro uma individualidade (ou alteridade) a ser respeitada.
O que mantém esse anseio, a despeito da obsolescência do ideal romântico, é o fato de se considerar a vida amorosa como um dos poucos espaços que empresta a cada um o sentimento de pertencimento, de não se estar só, de poder dar um sentido para a vida e para a morte. Por meio dela parece ser possível temperar a existência com pitadas de fantasias, transformar a banalidade do cotidiano em magia e inventar novas maneiras de ser, mais próximas do que se imagina que o outro queira que se seja. E, de quebra, apostar que se pode ser melhor.
Na época de Goethe, a tarefa de encontrar uma acomodação feliz entre as reivindicações individuais e culturais indicava a necessidade de internalizar a repressão social dos sentimentos destrutivos e dos desejos sexuais temidos, que deveriam se transformar em uma consciência moral vinculada à culpa. Hoje a pluralidade dos códigos de convivência nos coloca em contínuos conflitos a serem administrados para que possamos validar a diversidade de nossas opções.
Sabe-se que no terreno do amor e do sexo não há como expurgar a contingência, a ambiguidade e a dúvida. Resta construir caminhos em que o jogo narcísico que nos constitui também possa inventar uma ética para nossas condutas. Pode-se dizer que as afinidades eletivas, nestes dois séculos que nos separam de Goethe, mantêm esse dilema entre nosso ideal subjetivo e os ideais sociais, mas nossas dores e temores estão mais ligados à confiança que conseguimos ou não obter de nossas potencialidades.
Movimento do amor
O filósofo Goethe, ícone do romantismo alemão, fazia parte do movimento literário Sturm und Drang (Tempestade e Ímpeto), situado no período entre 1760 a 1780. Tratava--se de uma reação ao racionalismo que o Iluminismo do século XVIII postulara. Fora incentivada uma poesia mística, selvagem, espontânea, na qual se valorizavam a emoção e o sentimento acima da fria razão.
Nova ética da sexualidade
A partir da década de 60, a revolução sexual impôs reposicionamentos sociais e redefinições dos papéis sexuais, o que repercutiu de forma decisiva nas relações homem/mulher, nas relações homossexuais e, sobretudo, nas relações amorosas entre os jovens, que começaram a ver e a viver a sexualidade de forma totalmente diversa. O advento da pílula anticoncepcional e a liberação do aborto em diversos países ocidentais permitiram aos jovens morar juntos, ter relações sexuais fora de uma conjugalidade mais séria, separar-se quando não havia mais motivos para se estar junto, e assumir suas preferências sexuais mesmo quando essas não pertenciam ao modo tradicional das relações heterossexuais. Essas mudanças, que hoje já estão mais digeridas pela cultura ocidental, transformaram sobremaneira a paisagem social e admitiu uma nova ética da sexualidade.

Gisela Haddad, é psicanalista, autora do livro Amor e Fidelidade (Ed. Casa do Psicólogo) e membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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