quarta-feira, 23 de março de 2016

O mistério da lança do soldado

Esta é a Semana Maior, a semana de todas as semanas! Na memória interiorizada no Coração da Igreja, celebramos e acompanhamos em tantas representações, as cenas principais e os passos do Senhor na sua Paixão!
Esta memória histórica estava (e continua a estar, mesmo se com outras formas, certamente) na espiritualidade popular. Recordo-me dos tempos da minha infância!...

Durante a Quaresma, eram os ranchos dos romeiros a passarem no caminho ou sentindo-os de longe na cantilena da recitação do terço enquanto atravessavam os povoados. Na Semana Santa quase todos os dias, à noite, o meu Pai, que mal sabia ler e nunca tinha estudado teologia, mas fruto do que escutava das pregações populares na Igreja, explicava-me que passos da paixão naquele dia se recordavam. E um dia disse-me, quando guardava as folhas de espadana, interrompendo assim uma corda iniciada: "agora não podemos fazer cordas, porque foi neste tempo que os judeus prepararam as cordas com que prenderam Nosso Senhor!..."
Nas meditações para esta semana, escritas por João do Coração de Jesus, somos convidados em cada dia a acompanhar o Senhor passo a passo: na segunda feira, ele medita sobre a condenação de Jesus à morte; na terça-feira, a meditação fixa-se no caminho da Calvário; na quarta feira, medita sobre as palavras de Jesus na cruz. Na quinta feira, como é evidente, é a meditação sobre a última ceia, na qual João do Coração de Jesus se fixa sobretudo na cena na qual o discípulo amado, S. João, se abandona à ternura do Coração de Jesus, repousando a cabeça sobre o seu peito!... Na sexta feira santa, é o mistério da lança que trespassa o peito do Senhor, mistério maior e central de todo o mistério da Paixão e, no sábado santo, é a meditação no luto de Maria e dos apóstolos e a provação de Madalena.
Neste breve apontamento, gostaria de chamar a atenção para a meditação de Sexta Feira Santa sobre a lança do soldado que trespassa, que abre o Coração de Cristo.
Este é talvez o tema por excelência da mística e da espiritualidade cristológica de João do Coração de Jesus. No seguimento do texto evangélico, ele vê neste mistério ou neste momento do grande mistério, a revelação mais impressionante do amor do Coração de Cristo, que se abre para em si acolher todo aquele que o contemplar, com o olhar transfigurado pela fé. Já na Coroa de Amor sobre a Paixão dedica uma muito profunda meditação a esta cena da Lança que abre o Coração de Jesus já morto. E a este propósito regista dois pontos essenciais. Em primeiro lugar, que o soldado que pegou na lança era cego!... E por isso, a lança não foi conduzida por ele, mas sim pelos anjos que levaram a lança até ao lado de Cristo, e foi assim que ela abriu o peito do Redentor, abriu o caminho para o divino Coração, do qual saiu sangue e água, os Sacramentos e a Igreja. Este soldado era Longino, diz a tradição, que a partir daquele momento passou a ver. S. Gregório de Nissa, numa das suas cartas, recorda que a Capadócia, sua terra natal, fora evangelizada por Longino... E talvez assim se compreenda o porquê da intensidade mística e contemplativa da teologia dos Padres Capadócios! O outro ponto que refere João do Coração de Jesus na sua meditação, é a resposta a esta pergunta: porque é que os soldados decidiram abrir o lado do Senhor com uma lança, se Ele já estava morto? Porque se tratava da revelação de um grande mistério: mostrar que o amor é mais forte do que a morte! Deste Coração que já não pulsa brotam os rios de água viva, e quem para Ele olhar será salvo. A morte de Jesus na Cruz foi por excesso de amor! Foi um êxtase de amor, porque pode de amor morrer-se!..., para dar a Vida.
Já na perspectiva do Evangelho de S. João, já na sua recepção na teologia mística desde a patrística até ao séc. XIX, - o século da grande devoção ao Coração de Jesus, essa devoção 'revelada' nos últimos tempos, diz João do Coração de Jesus, para responder às heresias do tempo, o rigorismo jansenista e a indiferença religiosa do liberalismo, - este momento da Paixão é o ponto culminante de toda a história da revelação, a Hora da manifestação da glória, da divina majestade do AMOR levado até ao fim. O Coração ferido de Cristo é a fonte e a expressão, o sinal simbólico - sacramental do divino Amor incarnado! Que a Igreja, representada em Maria e no discípulo amado, em silêncio contempla e acolhe!

José Jacinto Ferreira de Farias, scj
joseffarias@netcabo.pt 

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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