sábado, 25 de abril de 2015

Sobre a doença de existir (Parte III)



Porém, as diversas abordagens no uso de drogas antidepressivas são tão passíveis de erro quando as reflexões provenientes da Psicologia. Em ambas as áreas, há concordâncias e discordâncias.
A posição aqui tomada não é de negar a importância da Psiquiatria e a utilização de remédios, mas de entender que a Psiquiatria necessitaria ser muito mais um auxiliar da Psicologia do que da Medicina. Por isso, levantamos possíveis fatores que poderiam desencadear esse processo que, por um lado, estaria na constituição biológica da pessoa, e, por outro, que seriam potencializadas por características contemporâneas do modo de viver.

Nota-se, portanto, que esse transtorno apresenta sintomas relacionados com os fatores psíquicos, orgânicos, hereditários, sociais, econômicos, religiosos, entre outros, levando a um sofrimento que modifica consideravelmente a qualidade de vida.


EXISTIR E ADOECER
Hoje, ninguém tem o direito de sofrer! Em alguns diálogos, há a ideia de que existir nos traz dúvidas, pois o próprio ato de pensarmos sobre nossa existência faz-nos descobrir realidades que nos machucam ao entrarmos em contato com experiências armazenadas em nossa memória. Então, poderíamos chamar a existência de doença? Poderíamos pensar a existência como doença?
O ­ filósofo Arthur Schopenhauer (1788-1860), mais precisamente em sua obra O mundo como vontade e representação, explicita que a vontade é apenas uma força das expressões da vida, e nenhuma felicidade pode ser duradoura. A vida, por sua vez, move-se como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento. A vontade tem como função perpetuar a vida, que tem como núcleo base o sofrimento. Sob esse prisma, o ideal ético seria a negação da vontade. Logo, não ser seria mais
importante do que ser, e a felicidade seria meramente efêmera, jamais eterna.
Para compreender esse pensamento, devemos entender o seu contexto: Schopenhauer escreveu tendo como pano de fundo um século de miséria, advindo do lado negativo da industrialização e da decadência da Ciência no seu projeto iluminista. Para ­fins didáticos, devemos nos atentar para a palavra weltschmerz, que, em português, poderia ser compreendida como "a dor do mundo", "a dor de existir".


Segundo Schopenhauer, a felicidade nunca é atingida em sua totalidade, tendo os seres  humanos apenas acesso a pequenos instantes de felicidade. Uma vez que o ­filósofo alemão postula que, diante de todo o sofrimento, cada indivíduo deve tentar se aproximar da felicidade em meio a toda dor. Mas ele nos lembra sempre que o esforço de alcançar a felicidade não é algo natural, na verdade é apenas ético. O que existe é apenas um esforço ético, porque não existe uma lei natural de que o mundo proporciona felicidade, tal como a lei de que, para sobrevivermos, temos que respirar. Assim, ser feliz não é natural, mas depende da nossa vontade.
A FELICIDADE NA PÓS-MODERNIDADE
Na pós-modernidade, o ser humano é coisi­ficado, um mero objeto a ser consumido, a ser venerado; e adoece por não ser tratado como um ser humano, mas como um ser fora de si, um "ser-coisa", que busca a todo momento o ideal, e foge do real. Contudo, o que analisamos é que a vida como doença é uma característica contemporânea, uma vez que as realizações mais íntimas são deixadas de lado pela adequação a um modelo de uma sociedade consumista e narcisista.
A depressão, portanto, está relacionada também com o contexto social de cada época. O indivíduo passa a ser visto como um objeto, que compra e é comprado, tomado pelo sistema, que toma seu tempo para fazer do trabalho o ideal de vida, para fazer que sua individualidade dependa sempre da aprovação dos outros, imerso em uma sociedade narcisista. Ele é, portanto, sempre um "outro", nunca um "eu".
A depressão situacional é caracterizada primordialmente por circunstâncias de con‑flito, configurando uma situação que apresenta a característica essencial da relação existente entre a pessoa e seu ambiente, tendo como causas a situação con‑flitiva eu/mundo e a sobrecarga emocional, proveniente de um ambiente demasiadamente exigente, levando ao isolamento ou inatividade. Tal indivíduo vive longe da realidade da vida, uma vida contingente, onde vida e morte são matérias normais do cotidiano. Em que sofrimento e alegria são faces da mesma moeda, da moeda da existência. Aceitar isso é a­firmar a vida, a a­firmação de si mesmo. Aceitar a vida como ela é.

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/95/artigo313250-3.asp

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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