sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sobre a doença de existir (Parte II)



SOBRE A CULTURA DO NARCISISMO
Na sociedade de consumo, o existir está totalmente atrelado ao adoecer, tal hipótese pode ser corroborada por meio de uma análise do narcisismo. A sociedade atual estimula a cultura do narcisismo, pois cada vez mais competimos por um "lugar ao sol" em um mundo que não oferece espaço para todos. As exigências do sucesso provocam enormes desgastes e levam as pessoas a se sentirem obrigadas a atingir objetivos impostos pelo mercado, e a terem que ultrapassar a todo custo suas limitações, indo muitas vezes além do que podem. E assim cria-se uma batalha interior entre o "eu real" e o "eu idealizado", entre o que eu sou e o que eu sonho ser. Consequentemente, a concepção de ser humano é pautada por ter e por aparentemente ser o que esperam de nós.
Christopher Lasch (1932-1994) é considerado um grande crítico do modelo de vida próprio das sociedades industriais. É na sua obra, A cultura do narcisismo, que demonstra sua crítica à sociedade atual, argumentando que existe, de certa maneira, um desinteresse pelo mundo exterior, exceto na medida em que ele serve como fonte de gratificação. Temos, então, uma busca de autoidentidade, uma espécie de narcisismo. Sucesso: a única razão de ser do indivíduo narcisista. Não só o sucesso, mas a aparência de sucesso, o reconhecimento da plateia como tal. Para Lasch, o narcisista representa a dimensão psicológica dessa dependência. Não obstante, em suas ocasionais ilusões de onipotência, o narcisista depende de outros para validar sua autoestima. Tal análise nos indica que vivemos em tempos nos quais nossa individualidade depende da aprovação dos outros, nosso mundo interior não tem tanto prestígio: (...) porque o crescimento e o desenvolvimento pessoal se tornaram tão árduos de serem atingidos; porque o temor de amadurecer e de ­ car velho persegue nossa sociedade; porque as relações pessoais se tornaram tão instáveis e precárias; e porque a 'vida interior' não mais oferece qualquer refúgio para os perigos que nos envolvem".4 O que caracteriza esse comportamento humano é a super­ficialidade emocional, uma pseudoautopercepção, assim como o horror à velhice e à morte, restando uma preocupação com a sobrevivência de si.
4 LASCH, 1983, p. 37



A preocupação de uma sociedade de consumo, desvinculada do passado e do futuro, ­fixa sua a atenção no aqui e no agora. Formam-se, então, indivíduos com medo de se perderem, que se agarram na busca frenética de uma identidade que lhes satisfaça e que lhes permita serem percebidos. O produto dessa sociedade não se percebe como parte da História, e não se sente insegurança por causa apenas de questões econômicas, mas principalmente
do medo de não conseguir ser, existir: "a ética da autopreservação e da sobrevivência psíquica está, então, radicada não meramente nas condições objetivas da guerra econômica, nas taxas elevadas de crimes e no caos social, mas na experiência subjetiva do vazio e do isolamento".5
5 Idem, p. 77
A consciência de Narciso é o espelho, transparente, líquido... e tão externo a ele. Os gregos antigos conseguiram evidenciar a imagem que se destacaria no homem dos tempos pós-modernos: aquele que se perde na contemplação do objeto procurando no próprio sujeito acaba por perder-se na procura de si mesmo. O que chamamos aqui de ética da sobrevivência.
Outro fator emulsionante é a mídia, que, por meio do bombardeamento de propagandas, incentiva a sobrevivência do "eu", potencializando os sonhos narcisistas, sendo eles, os sonhos de fama, sonhos de glória, voltando cada vez mais o olhar para o alto, para as estrelas, para um mundo que o livre da maldição da contingência, fugindo sempre mais da realidade. É como se todas as pessoas tomassem por pensamento que a felicidade é um estado contínuo e um direito que, ao nascer, todos nós ganhamos, sendo que ela é instável e está para ser conquistada em meio a um mundo caracterizado pela mudança, pela instabilidade e por sua multiplicidade de expressões.
A SAÚDE PSÍQUICA E O MODELO DE VIDA ATUAL
Não é arriscado dizer que a depressão é uma das principais manifestações do sofrimento psíquico no ser humano contemporâneo, sendo aceitável a referência de que vivemos na "era das depressões", comparando com o ­final do século XIX, marcado pela histeria.
Podemos citar o último relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), que indica que a depressão está em 4º lugar entre as principais causas de ônus entre todas as doenças. Se tal quadro se perpetuar, teremos em 2020 a depressão em 2º lugar. Em escala mundial, unicamente a doença isquêmica cardíaca estará à frente.
Em Psiquiatria, o termo depressão é utilizado para fazer referência aos transtornos de humor, podendo ter momentos irritáveis na maior parte do dia. Os pensamentos negativos fazem parte do quadro clínico da Psiquiatria, como o sentimento de culpa, sentimento de inutilidade, diminuição do prazer nas atividades cotidianas.



O grande problema é que o estilo de vida atual é caracterizado por uma imensa pressão nas capacidades humanas, o que culmina em um constante estado de stress, fator forte no desenvolvimento de doenças psíquicas.
Essas exigências podem se tornar fatores de características estressantes, especialmente os de origem psicossocial, que são acentuados por autores como Joca, Padovan e Guimarães, argumentando que cerca de 60% dos casos dos episódios depressivos são precedidos por situações estressantes, seja no trabalho, na família etc.
Elementos em excesso como culpa, mágoa, traumas, stresse, frustração podem desencadear um quadro clínico de depressão, no qual um dos sintomas mais clássicos é a anomia, uma perda de vontade de realizar atividades que antes eram praticadas com disposição. O sujeito doente passa a ver o mundo de forma negativa na maior parte do tempo; as doenças psicossomáticas são efeitos colaterais da pós-modernidade.
Sob a perspectiva da Psicanálise, percebemos que a realidade externa não tem grande participação na formação do sintoma. No caso da depressão, ela seria advinda de conflitos internos entre o Id, o Ego e o Superego. O meio externo seria apenas um fator que desencadearia tal melancolia.
Para a Psicologia, o fundamento da depressão seria o encontro do "eu" com a realidade, como as relações familiares, as relações do indivíduo com a sociedade, no qual di­ficuldades demasiadamente sofridas desencadeariam tal processo. Essa é a posição tomada não de maneira unilateral, mas um ponto de vista que não exclui os outros.
O con‑flito entre o eu real e o eu ideal parece ser um chão profundo para tal análise, especialmente em uma sociedade narcísica, uma vez que não há como o ser humano escapar do seu contexto sociocultural, pois nesse contexto ele constrói sua subjetividade. Assim, esse tema serve como uma crítica à sociedade contemporânea industrializada, mecanicista, consumista, indicando um caminho no qual se tem gerado um grave empobrecimento emocional e ético dos indivíduos.


Muito embora existam relatos de casos na Antiguidade, a depressão parece ser um quadro muito mais especí­fico de nossa realidade, caracterizada pela liquidez nos relacionamentos, especialmente na óptica das mudanças sociais.
O indivíduo é tomado pela frustração de não atingir as exigências impostas a ele, gerando um vazio existencial. A sociedade contemporânea realiza uma exigência geralmente desproporcional às capacidades humanas. Surge, então, o ser humano preso ao que "perdeu" por não ter atingido o ideal, tornando-se nostálgico e deprimido.
Percebemos, então, relações frágeis, super­ ciais, em que há certa supervalorização da imagem, de tal maneira que as diversas formas nas quais ocorrem o sofrimento psíquico estariam estritamente correlacionadas, re‑fletindo, assim, uma sociedade em que impera o espetáculo do narcisismo.
Sob a análise de Solomon, um estudioso da área da Psiquiatria, a concepção de interação entre gene e ambiente não era tão difundida até meados do século XX. Tal abordagem advém de uma leitura cartesiana, na qual a natureza seria dividida entre mente e corpo, deixando a responsabilidade do problema psíquico para áreas da Química, por exemplo. Assim, a depressão não tinha conotação externa, mas apenas consequências de implicações no plano genético e químico, o que isentaria a pessoa da responsabilidade para impedir o desencadeamento da doença. Assim, o tratamento seria direcionado para o uso de drogas que agissem nos neurotransmissores, abrindo espaço, então, para a psicofarmacologia. A pessoa seria vista como vítima da natureza: "Um interesse social em dizer que a depressão é causada por processos químicos internos que estão de algum modo além do controle do afligido. É nesse contexto que os remédios antidepressivos se tornaram tão populares. Se sua função é interna e relativamente incompreensível, devem afetar algum mecanismo impossível de controlar através da mente consciente. É como ter um motorista: você simplesmente se senta relaxado no banco de trás e deixa alguém enfrentar os desa­fios dos sinais do trânsito, policiais, mau tempo, regras e desvios por você".6
6 SOLOMON, 2002, p. 307
Desse modo, a Neurociência teria papel fundamental diante de tal perspectiva, "é importante observar que as Neurociências pretendem construir uma leitura do psiquismo de base inteiramente biológica. Com isso, o funcionamento psíquico seria redutível ao funcionamento cerebral, sendo este representado em uma linguagem bioquímica. Enfim, a economia bioquímica dos neurotransmissores poderia explicar as particularidades do psiquismo e da subjetividade".7
7 BIRMAN, 2001, p. 181-182

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/95/artigo313250-2.asp

Um comentário:

  1. Complicamos e exigimos demais de nossa existência, quando nos submetemos ao consumismo, apenas! Excelentes textos conscientizadores! Parabéns!
    Abraço.

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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