quinta-feira, 23 de abril de 2015

Sobre a doença de existir (Parte I)



Por que existem tantas pessoas com depressão, distúrbios de humor e tantas outras faces de uma mente em desequilíbrio? A tarefa não é fácil, mas, como hipótese, elegemos a maneira de vida contemporânea como um campo fértil para encontrar possíveis fatores propícios para criar um quadro do crescimento de tantas doenças neurológicas. De certa maneira, existir passou a ter pontos em comum com adoecer, e a existência pode passar a ser percebida como doença.
O modo de viver moderno é caracterizado pelo desenvolvimento cada vez mais rápido no qual a tecnologia, a cada dia, supera a si mesmo. O homo faber se vê, cada vez mais, diante da necessidade de acompanhar o avanço tecnológico e o desenvolvimento do mercado. En­fim, temos de produzir. Então, quando se observa nosso modo de viver, pode-se dizer que cresce o número de pessoas com estresse, depressão e tantas outras síndromes. Por meio da análise da Neurociência, da Psicologia, da Psiquiatria e da Filosofia, é possível aprofundar a re‑flexão do impacto da modernidade sobre a mente humana.
O ambiente é um fator que pode influenciar modi­ficação genética dos transtornos mentais. Uma pesquisa realizada em Bruxelas, Bélgica, apresentou que 29% dos pacientes possuidores do transtorno bipolar, quando não tratados, corriam risco de vida. Os Estados Unidos gastam anualmente em torno de U$ 12,4 milhões no tratamento de doenças psiquiátricas. No Brasil, por exemplo, a esquizofrenia afeta cerca de 1% da população. E o aumento do número de informações pode ser um dos fatores para o início dos muitos problemas já citados.
Assim, primeiramente é necessário analisar um quadro geral de uma visão crítica do progresso na nossa sociedade. Em seguida, o estudo caminha para questionar o contexto contemporâneo sob a óptica da sociedade do consumo, e o que ela fornece para criar um indivíduo existencialmente doente.
Consequentemente, ocorrerá o uso das descobertas da Neurociência, da Psicologia e da Psiquiatria, para tornar a análise mais concreta, apontando de maneira mais clara as consequências da modernidade na mente ou no cérebro humano.

A INSUSTENTÁVEL SOCIEDADE DO CONSUMO
Somos consumidores, e isso é fato! Convido você a parar e perceber a si mesmo como consumidor: O que você consome? Quanto consome? E o que consome é, de fato, o necessário?


Nas sociedades contemporâneas, principalmente nas ocidentais, ocorre uma busca incessante para preencher o tempo com coisas, buscando um sentido de existir por meio do ter, e não do ser, uma vez que bens materiais não melhoram relacionamentos ruins.
São pensadores como Zygmunt Bauman (1925) e Jean Baudrillard (1929-2007) que elucidam as linhas que seguem: a expressão "sociedade de consumo" de­ ne uma sociedade característica na qual a oferta geralmente excede a demanda. Nessa sociedade, Bauman postula que, de um lado, há a mercadoria como centro das práticas cotidianas e, de outro, uma constante orientação para que o modelo de comportamento seja sempre direcionado para o ato de consumir. Segundo Baudrillard, o consumo, na qualidade de nova modalidade de vida, transformou-se na moral do mundo contemporâneo. Assim, a maneira como vivemos de­fine-se pela forma como consumimos, levando a reconstrução das relações humanas a partir do padrão e semelhança das relações entre os consumidores e os objetos de consumo. É a transformação dos consumidores em mercadorias.
Outra característica é que somos diariamente bombardeados por estratégias de marketing agressivas somadas à facilidade de crédito. Não seria arriscado dizer que "comprar é fácil, difícil é existir!". Ocorre que, em uma sociedade consumista, paga-se um alto preço: ninguém pode se tornar sujeito sem primeiro "ser" mercadoria. Logo, o ser humano contemporâneo é transformado em homo consumens; mergulhado em um mar de mercadorias e ofertas, acaba por se misturar a elas. Há, portanto, um tipo de consumismo impulsivo, descontrolado, irresponsável, e não poucas vezes irracional: "A busca por prazeres individuais articulada pelas mercadorias oferecidas hoje em dia, uma busca guiada e a todo tempo redirecionada e reorientada por campanhas publicitárias sucessivas, fornece o único substituto aceitável - na verdade, bastante necessitado e bem-vindo - para a edi­ficante solidariedade dos colegas de trabalho e para o ardente calor humano de cuidar e ser cuidado pelos mais próximos e queridos, tanto no lar como na vizinhança".¹
Logo, a noção de felicidade é gestada no útero de uma sociedade consumista, que gera seres iludidos com promessas do mercado, que geralmente levam a decepções. O esforço do consumo permanece como uma utopia para alcançar o idealizado. A responsabilidade pela tentativa do tal "êxito" recai somente sobre o indivíduo, muito embora o estilo de mercado seja esmagador e mitigado com suas propagandas. O mercado cria as condições, mas não se responsabiliza pelas consequências, como se o sujeito fosse autônomo em suas escolhas, quando é vorazmente influenciado para a compra. Ao adquirir um objeto de desejo, não se alcança a felicidade, e a frustração recai sobre o indivíduo.
A felicidade, então, está intrinsecamente vinculada à possibilidade de consumir: "(...) o miraculoso do consumo serve (...) de sinais de felicidade".² A pergunta que ­fica é: é preciso vestir uma roupa nova a cada festa? Quantos pares de sapato precisamos comprar para nos sentirmos saciados? Qual computador mais avançado devo obter para estar na frente, como numa corrida para ver quem consome mais? Isso signi­fica, basicamente, uma sociedade que busca imitar os que mais consomem para atrair atenção. O risco está no fato de que aquele que consome acreditando que obteve a felicidade pode não encontrá-la, e pode cair em um vazio existencial que só um novo consumo pode resolver (?).
² BAUDRILLARD, 1995, p. 22
O consumo não é entendido somente como uma maneira de chamar atenção, mas também como um meio de fuga de uma vida estressante, cheia de con‑flitos, traumas... de uma vida vazia.
O império do mercado re‑flete-se na crescente comercialização das relações humanas. E ela desemboca em um dualismo antropológico que sempre traz consigo o fenômeno de dupla personalidade: conflito no próprio homem entre o papel de produtor e o de consumidor, e a antiga unidade entre o homem e a natureza, própria da civilização agrícola, é destruída pela civilização industrial. Uma O império do mercado re‑flete-se na crescente comercialização das relações humanas. E ela desemboca em um dualismo antropológico que sempre traz consigo o fenômeno de dupla personalidade: con‑flito no próprio homem entre o papel de produtor e o de consumidor, e a antiga unidade entre o homem e a natureza, própria da civilização agrícola, é destruída pela civilização industrial. Uma competição feroz orienta a vida de homens e mulheres, deixando de lado valores tais como a solidariedade, a colaboração, entre outros. Naturalmente, quem não pode consumir é deixado de lado, está à margem.
O grande problema é que, sendo mercadoria, o consumidor consome a si mesmo, sua vida, seu cotidiano. "Consome-se" trabalhando para poder consumir o que o mercado apresenta e acaba por esquecer que ele é a mercadoria primeira desse sistema. Portanto, nossa sociedade é insustentável, pois é contraditória, destrói a si mesma, gerando indivíduos frustrados, viciados em shoppings, doentes por consumir. E o grande problema é que tal comportamento consumista passa a fazer parte do nosso relacionamento não só com as coisas, mas também com as pessoas, já que, sendo elas mercadorias, precisam ser consumidas para poder consumir, cada indivíduo se devorando um a um. Passa-se a tratar as pessoas como se tratam as mercadorias, o ser humano está cada vez mais sendo objetificado. Então, temos um grande espaço aberto para todo tipo de doenças advindas da impossibilidade de consumir e sobreviver ao nível de uma sociedade vorazmente consumista.
Serge Latouche (1940) apresenta uma colocação muito interessante acerca desse problema, destacando que "nossa sociedade amarrou seu destino a uma organização baseada na acumulação ilimitada. Esse sistema está condenado ao crescimento. Quando há desaceleração ou parada de crescimento, vem a crise ou até o pânico".³

Fonte: http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/95/artigo313250-1.asp - Matêus Ramos

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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