sábado, 7 de março de 2015

O Zelo pela tua casa há de me devorar!

Neste terceiro domingo de nosso grande retiro quaresmal, rumo às grandiosas celebrações da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, encontramos o Divino Mestre no Templo de Jerusalém. E na meditação do Evangelho deste dia, testemunhamos seu gesto profético e cheio de indignação contra os vendilhões e sua insistência numa prática religiosa baseada na JUSTIÇA. Recebemos de Jesus o anúncio e a proposta de um verdadeiro culto ao templo de seu corpo martirizado e glorificado. Hoje, este templo é a comunidade de irmãos e irmãs, a comunidade de fé, a comunidade eclesial, o corpo místico de Cristo .

Por isso, o tema central da liturgia deste domingo é a adoração de Deus . É o que o Antigo Testamento entende por “temor de Deus”. Este termo não aponta um medo infantil diante de um Deus policial, mas todo o sentimento de submissão e receptividade diante do Mistério. Israel e seu povo não podem “temer” outros deuses. Só a amizade de Javé vale a pena temer perdê-la.

Esse temor de Deus se expressa, antes de tudo, na Lei do Sinai, cujo resumo são os Dez Mandamentos. Inicia-se com o mandamento do temor a Javé: só a Ele se deve adorar, pois é um Deus que age: tirou Israel do Egito. Mas esse temor não diz respeito tão-somente à atitude diante de Deus, mas também ao relacionamento com o próximo, com os irmãos e irmãs. Ora, Javé não estaria bem servido com um povo cujos membros se devorassem mutuamente. Daí o culto implicar imediatamente num “etos”, ou seja, num critério de comportamento.

No entendimento dos antigos israelitas, o Decálogo, refletido na primeira Leitura de hoje (Ex 20,1-3.7-8.12-17), era algo como um pacto feudal. Javé era o suserano, que fornecia força e proteção, mas esperava da parte do vassalo, Israel, colaboração e temor; e este consistiria na adoração de Javé e no relacionamento fraterno no seio do próprio povo. Sem estas duas condições, Israel não valeria nada como povo de Javé. Em termos de hoje: para servir a Deus, não basta ser piedoso; é preciso ser gente, também, no relacionamento com os irmãos.

Irmãos e Irmãs,

Podemos dividir o Evangelho de hoje (Jo 2,13-25) em três partes: primeiro, a purificação do Templo, expulsando os que haviam transformado seus átrios em lugar de comércio para a compra e venda de animais, que serviam ao formalismo ritual. Os peregrinos, tantas vezes vindos de longe, deviam encontrar e pagar no lugar os animais para o sacrifício. Muitas vezes, os peregrinos dispunham só de dinheiro romano, não admitido no Templo, por serem moedas cunhadas com imagens de imperadores estrangeiros ou com figuras pagãs do mundo opressor; daí a presença de cambistas no Templo. Segundo o Evangelista João, o episódio acontece no recinto sacro, mas externo ao Templo propriamente dito, que era um lugar de acesso também a estrangeiros e pagãos.  Por isso, pode parecer excessivo o rigor de Jesus. Mas ao Evangelista interessa o simbolismo do episódio.

Jesus conheceu o mesmo Templo que foi restaurado por Herodes, aquele que mandou massacrar os meninos de Belém. Aquele local se tornara o centro do culto ao Deus único e centro do judaísmo. Nele Jesus foi consagrado a Deus por Maria e José, nele “se perdeu” aos doze anos e a ele terá “subido” por ocasião das solenidades próprias do judaísmo.

 Meus irmãos,

A segunda parte começa com a citação do Salmo 69: “O zelo por tua casa me devora” (Jo 2,17b). E ligando à perícope vem a profecia: “Destruí este templo e eu o reconstruirei em três dias” (Jo 12,19b), que será citada como acusação diante de Caifás na condenação e será usada como escárnio no Calvário. Destruir e reconstruir, dois verbos fortes no Evangelho de hoje: aqui está o resumo da missão dos profetas.

Desde o início de seu Evangelho, São João anuncia a missão profética de Jesus: tirar o pecado do mundo, arrancar a criatura humana das trevas, destruir o velho homem e recriar o universo, fazer renascer a criatura pela força do Espírito Santo, transformar a água em vinho e, coisa inédita, destruir a morte e redar a vida, como tão bem aparece em tantas passagens dos Santos Evangelhos e, de forma muito visível, na ressurreição de Lázaro e sobretudo em sua própria ressurreição. Gestos profundamente proféticos, mas que ultrapassam os feitos de todos os profetas.

Mas do que o Templo-edifício o Evangelho nos fala, do templo espiritual, mas agradável a Deus, onde os sacrifícios não são animais, mas boas obras, obras de caridade, acolhida ao pobre, ao excluído, ao necessitado, acolhida aos marginalizados, aos injustiçados, disposição para a construção constante de uma sociedade mais justa e fraternidade, pois a “paz é fruto da justiça”, como nos alerta a Campanha da Fraternidade deste ano.

Deixemos os holocaustos e tudo o que lhe seja afim e vivamos a construção de um novo templo, o templo espiritual, com obras de caridade e obras de evangelização. Aprendamos a fazer o bem, procurando o que é justo e agradável a Deus. Corrijamos o opressor e defendamos a viúva, bem como o ancião. A resposta de Jesus à Samaritana é o dever de casa da liturgia de hoje: “Nem em Jerusalém, nem no Garizim, mas chegou a hora de adorar o Pai em espírito e verdade”. (Jo 4,31-23).

Meus irmãos,

Jesus foi deixando claro em sua caminhada que o Templo de Jerusalém tinha perdido o seu sentido e que ele mesmo, seu corpo, seria o novo lugar da presença salvadora de Deus. A novidade de hoje e que os dois templos se misturam e João observa: “O templo de que Jesus falava era o seu corpo” (in vers. 21). Não mais um templo de pedra, por mais precioso que seja, mas um templo vivo, aberto para todos. Nós cristãos, como prolongamento do Corpo do Cristo glorioso, somos a casa de Deus, o templo espiritual, cuja cabeça e fundamento é Jesus.

Enfim, a terceira parte do Evangelho. No capítulo 2º versículos 23 a 25, temos a exortação, inúmeras vezes repetidas nos Evangelhos: não basta a admiração diante dos milagres, da coragem, ou da novidade trazida por Jesus. É preciso a convicção de Marta: “Creio que és o Cristo, o Filho de Deus, que veio a este mundo” (Jo 11,27).

Irmãos e Irmãs,

Paulo anuncia a cruz de Cristo na segunda leitura(1Cor 1,22-25). Escândalo para os judeus, porque a cruz é um instrumento indigno para a morte de um judeu. Loucura para os pagãos, com sua filosofia elitista ou hedonista. Mas para os chamados de todas as nações e de todos os povos é a revelação da força de Deus e de sua sabedoria. Nós sabemos o porquê: Deus quer conquistar corações que se convertem diante da conseqüência de seu próprio orgulho. Por isso, o acesso a Deus acontece doravante no Cristo rejeitado, pois é nele que encontramos o gesto de reconciliação de Deus para conosco.

Nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Aqueles que têm responsabilidade no anúncio do Evangelho devem anunciar a mensagem com verdade e radicalidade, renunciando à tentação de a suavizar, de a tornar mais “politicamente correta, de a tornar menos radical e interpelativa. Às vezes, o invólucro “brilhante” com que envolvemos a Palavra torna-a mais atrativa, mas menos questionante e, portanto, menos transformadora.

Meus irmãos,

Hoje em dia, muita gente sente dificuldade em falar e aceitar os dez mandamentos. Esta lei, aparentemente tão negativa na sua expressão, não foi substituída pelo novo mandamento de Jesus, que é o amor? Por isso, buscando no amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, estaremos vivendo uma antecipação das glórias do Céu pela celebração da Páscoa. E mais, o batizado sempre deve se comprometer a promover a vida e lutar contra tudo o que a ameaça.

Todos os seres humanos são chamados a serem templos de Deus em Cristo Jesus. Importa não profanar o templo que carregamos em nós mesmo. Importa fazer com que tudo o que nele se realiza seja agradável a Deus. Há de sê-lo se vivermos a sabedoria e ou a loucura da cruz, isto é, se soubermos viver o amor que nos foi ensinado por Cristo, que deu sua vida para que tivéssemos vida. Essa é a nova Aliança selada por Cristo com toda a humanidade.

Site Catequisar

Um comentário:

  1. Profundos ensinamentos e reflexões que nos leva a comparar o que, e o como, vivemos hoje!
    Abraço.

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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