quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O Silêncio de Maria


A virtude de Maria que é mais explicitada nas Escrituras é o silêncio.
Maria nunca perguntou mais que o necessário; jamais tentou negociar, ou sair pela tangente. Mesmo sem conhecer o magnífico projeto, do qual fazia parte, sempre confiou, sempre se entregou e se deixou levar por sua fé e sua exemplar disponibilidade.
Maria é a mulher admirável, cuja missão de mãe, amiga e defensora, perpassa os tempos, e sua imagem é encontrada nas Sagradas Escrituras desde o Gênese até o Apocalipse.
Na verdade, não é difícil constatar que Maria está inserida no plano do amor de Deus. O Pai queria uma pessoa que, em nome da humanidade, aceitasse a salvação a salvação, que com ela se comprometesse e por ela arriscasse tudo. Deus Pai só deu ao mundo seu unigênito por Maria. Suspiravam os patriarcas, e pedidos insistentes fizéramos profetas e os santos da lei antiga, durante quatro milênios, mas só Maria o mereceu e alcançou graça diante de Deus...
Querendo se fazer homem, Deus precisava escolher como mãe uma mulher que fizesse a síntese entre o humano e o divino.
No Antigo Testamento, no tempo da dominação babilônica, vamos encontrar a figura singular de Ruth. Embora estrangeira (era moabita e de condição humilde) por sua disponibilidade e fé no Deus de Israel, ela sobreviveu a muitos percalços e foi incluída na genealogia do Messias (cf. Mt 1,5). Ruth é prefigura de Maria.
A bula “Ineffabilis Deus” do Papa Pio IX, revela que Maria vem acumulada de tanta perfeição que debaixo de Deus não se pode imaginar alguém tão perfeito e devotado. Como para Abraão, o pai do povo ao qual ela pertencia, assim para Maria também não foi fácil aceitar e viver a palavra de Deus em sua vida. Foi motivo de muito sofrimento e dúvida, de muita tristeza e escuridão. Mas ela permaneceu firme, como firme ficou o pai Abraão.
Em muitos casos o silêncio é ignorância, omissão, covardia. Em Maria ele é pleno, fecundo, participativo, profundo e revelador. A mãe de Jesus manteve-se atenta ao teor da Escritura: Há um tempo de falar e um tempo de calar (Ecl 3,7). O silêncio não é a entrada no repouso, mas a abertura para a revelação que o Senhor prometeu aos pequenos (cf. Mt 11,25s).
O silêncio de Maria é profundo e perscrutador. Talvez ela não compreendesse todos os fatos de sua vida, mas, pela fé, entesourava-os, no silêncio de seu coração. O profundo silêncio de Maria não era uma manifestação de indiferença; era o silêncio de um aprendizado profundo.
A vida de Maria possui muitos e eloquentes silêncios, desses que falam mais que mil discursos.

O primeiro deles é aquele que se refere à vida antes da anunciação. Quem era Maria? Os Evangelhos omitem o nome de seus pais e não nos dão qualquer informação. O evangelista Lucas, revela que ela era imaculada, cheia da graça de Deus, virgem prometida a José. E só. Antes disso, um grande e misterioso silêncio, que nos deixa curiosos e sem respostas. Somente Maria sabia quando seria a plenitude dos tempos (cf. Gl 4,4).
O segundo silêncio de Maria sobre o mistério da encarnação gerou a dúvida de José (cf. Mt 1,20s).
O terceiro silêncio de Maria poderíamos buscá-lo em sua vida oculta, no lar de Nazaré. Desde a gruta de Belém, ao exílio no Egito e no retorno à Galiléia, a mãe de Jesus guardou silencioso recolhimento em seu coração. Ela, até o início da vida pública, não diria nada, a ninguém, a respeito de seu Filho.
Na vida pública de Jesus encontramos o quarto silêncio de Maria. Mesmo acompanhando o filho em tantas atividades missionárias, enquanto Jesus evangelizava com discursos, denúncias, curas e grandes sinais, ela o fazia de outro modo. Com oração, presença e silêncio. Nesse período, ela só falou em Caná, lugar privilegiado do primeiro milagre. Maria também esteve presente e silenciosa na cruz. De pé e calada (cf.Jo 19,25).
O quinto e expressivo silêncio de Maria, que coroa sua vida terrena, aconteceu depois da ascensão de Jesus. Depois da subida do Filho aos céus, cai um silêncio profundo sobre a vida de Maria. Onde morou depois? Quantos anos mais ainda viveu? Na caminhada da Igreja que nasce sente-se a presença de Maria. No silêncio de Maria a Igreja aprende a caminhar na direção do Reino.
As Sagradas Escrituras evidenciam o silêncio de Maria. Quando da apresentação de Jesus à porta do templo, Simeão profetiza que aquele menino será sinal de contradição. Ela, seguramente, não compreende a extensão daquele oráculo. Não contesta; não pergunta. Em silêncio medita aquelas palavras em seu coração. O que vem de Deus e é guardado no coração, no tempo certo será esclarecido.
Deus a escolheu bem antes da encarnação ou mesmo da anunciação. A causa da grandeza de Maria não estava no fato de ela ser a mãe de Jesus, de tê-lo carregado noves meses em seu seio, e alimentado no peito. Isso era consequência. A causa estava no fato de ela ter ouvido a palavra de Deus e a colocado em prática.

Resenha de Anderson Ribeiro Sobre o artigo do Prof. Dr. Antônio Mesquita Galvão

Um comentário:

  1. Aprendo muito e me fortaleço com os textos que você publica em seu blog, Anderson! Uma catequese evangelizadora!
    [ ] Célia.

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"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

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