terça-feira, 18 de outubro de 2011

Procurado e amado por Deus (Parte II - Final)

Onde você se esconde? Quais são os pecados que lhe obrigam a "fugir de casa e se esconder", para que Deus não veja você na sua pobreza e miséria?
A oração nasce neste reencontro entre Deus, que nos busca, e nós que, medrosos, nos escondemos e insistimos em não querer voltar para casa. Só o amor é capaz de romper todas as barreiras do egoísmo humano.
A criação: primeiro livro da oração

Deus criou o universo e o colocou ao serviço do ser humano. Esta simples verdade comove-nos profundamente porque faz-nos compreender como nada teria sentido sem a presença do homem. Somente ele é capaz de agradecer, de louvar, de bendizer...de destruir. O primeiro livro que devemos aprender a ler, meditar e a transformar em oração é a criação, como obra-prima do amor criativo de Deus: "É sobretudo a partir da realidade da criação que se vive a oração" (Cat, 2569).

Vivemos numa sociedade da técnica, onde a criação se tornou simples ecologia e a defendemos não tanto por sua beleza e por uma necessidade contemplativa como escada e meio que nos elevam a louvar e a reconhecer a obra do Criador, mas puramente pela necessidade de sobrevivência. Hoje, mais do que nunca, sabemos que destruindo a natureza ou o ecossistema, estamos sujeitos a um suicídio coletivo. Se queremos continuar a viver, a habitar o planeta, devemos defender a natureza.

No entanto, não seriam necessárias leis para defender e cuidar da natureza se experimentássemos o amor por esta realidade que nos fala de Deus. A beleza do Criador se reflete nas suas criaturas. São Paulo da Cruz, em momento de íntima contemplação, gritava para as flores: "Vós falais mais forte de Deus do que eu". Deus nos dá o sentido contemplativo, amoroso, capaz do extasiamento diante de uma flor, descobrindo que o Criador das flores, dos campos, é muito mais belo que as flores.

Conta a história, não sei se é lenda ou realidade, que alguns filósofos iluministas insistiam em dizer que a necessidade de Deus não era outra coisa senão a projeção humana: "O homem 'criou Deus' e não Deus criou o homem". Para provar isto, isolaram uma criança num lugar bonito, com uma floresta linda e jardim com as mais belas flores. Colocaram perto da criança educadores ateus, que nunca e por nenhum motivo falassem para ela de Deus, de religião, do sobrenatural. Um dia, a criança estava brincando no jardim com uma flor e falava sozinha. Aproximou-se dela o educador, severo e ateu comprovado, e perguntou-lhe: "O que você está fazendo com esta flor e o que diz para ela?" A criança, com toda inocência, respondeu: "Digo: como tu és bela... mas quanto mais belo deve ser Aquele que te criou e te fez assim!"

Não é necessário que alguém nos fale de Deus. Nós o trazemos dentro de nós. É preciso somente debruçar-nos sobre as belezas da natureza para sentirmos o palpitar do coração e do amor do Senhor.

Francisco de Assis teve esta intuição contemplativa da presença cosmológica de Deus. Ele é o cantor livre e apaixonado do Deus presente nas coisas. Quem de nós não conhece o Cântico das criaturas? Para Francisco, todas as criaturas são irmãs e irmãos: "Louvado sejas, Senhor, por todas as tuas criaturas, principalmente o irmão sol que nos traz o dia e com o qual nos iluminas... Louvado sejas, Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas que puseste no céu, claras, preciosas e belas! Louvado sejas, Senhor, pelo irmão vento..."

Os Padres da Igreja, quando falam da criação, sempre comparam-na a um jardim onde Deus gosta de passear entre as suas criaturas para contemplá-las e por elas ser contemplado. A delícia de Deus é passear entre os homens.

São João da Cruz, no seu poema Cântico Espiritual, fala-nos com uma ternura impressionante da beleza da criação: "Ó bosques e espessuras, plantados pela mão de meu Amado! Ó prado de verduras, de flores esmaltado, dizei-me se por vós Ele há passado!" (C 4).

Teresa de Ávila tinha um sentido especial pela água; nela via a forma mais plástica da oração, necessária para regar o jardim de nossa alma. Os místicos orientais também têm um apreço especial para com a natureza.

Voltar ao essencial

A beleza artificial nos agride e aliena da verdadeira e autêntica beleza da criação, que é sempre pacificadora e harmoniosa. O canto dos pássaros não agride ninguém, ele chega à profundidade do nosso ser e nos harmoniza. O perfume das flores, o canto das cascatas e a voz rumorosa dos rios, a beleza da luz do sol e das estrelas pacificam o nosso espírito. Mas quem de nós não se sente agredido pelo som a todo volume de um rádio, de um CD, de um violão elétrico? Quem não se sentiu na vida agredido pela luzes multicores que quase nos cegam?... É necessário voltar ao essencial da natureza para podermos reaprender o caminho do diálogo com o Senhor criador.

Responda rápido a estas perguntas:

- Quanto tempo faz que você não olha o céu estrelado?
- Quanto tempo faz que não contempla uma flor desinteressadamente, e não na floricultura: com a flor nos olhos e a mão no bolso?
- Quanto tempo faz que não pára para escutar o canto de um pássaro?
- Quanto tempo faz que não fica sozinho num lugar solitário, prestando atenção à voz do vento, ao murmúrio da água, ao correr dançante de uma lagartixa?

Faça da natureza o seu livro de oração. É claro, a natureza não tem voz, não tem sentimentos, não tem energia (não acreditamos na Nova Era e em coisas semelhantes), mas ela tem a capacidade de falar-nos do Criador, e nós, homens e mulheres com sentimentos, damos voz e sentimentos a tudo o que está ao nosso redor.
Abra lenta e silenciosamente o livro da natureza e deixe que ele te ensine e te fale de Deus. Acolha a voz da natureza, deixe-se guiar por ela até o Criador. "Tudo que respira louve o Senhor! Aleluia!" (Sl 150,6).

Venha comigo, meu irmão, a um lugar separado, distante, para escutarmos a voz do silêncio e, depois de termos louvado o Senhor, voltarmos à cidade dos homens para falarmos de Deus com o nosso silêncio, que é sempre amor. Quando não soubermos como rezar, não nos esqueçamos nunca: é só olharmos os lírios dos campos, as aves do céu, o azul do firmamento, o brilho das estrelas... e eles nos dirão quem é o Senhor.

Frei Patrício Sciadini, OCD

Um comentário:

  1. Que bela prece, a simplicidade revela as maravilhas dos céus. Vim deixar um forte abraço para você e os desejos de muitas graças na sua vida. Deus te abençoe

    ResponderExcluir

"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...