segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Procurado e amado por Deus (Parte I )

Ninguém duvida que o ser humano seja o único dotado de liberdade e de vontade, capaz de dizer "sim" e "não", de construir o seu futuro na paz ou de destruir o seu presente, ameaçando o amanhã através da guerra e da destruição mais brutal. Nenhum animal, por mais feroz que fosse, inventou os campos de concentração ou lançou a bomba atômica sobre os outros animais. É verdade que os animais defendem os seus territórios, mas não abortam os filhos que a natureza lhes concede.

A inteligência humana é de uma capacidade tal que não é possível medir e que, de vez em quando, dominada pelo orgulho, é tentada a substituir Deus. Essa mesma inteligência crê-se no direito de ultrapassar qualquer limite e de satisfazer qualquer capricho e sonho, até de clonar o ser humano.

O ser humano, corajoso navegador nos mares do saber, é grande à medida que sabe ser humilde. A humildade não humilha, mas enaltece aquele que é consciente de que há limite em tudo e que, por trás de todas as coisas, está sempre o desconhecido, o mistério que só pode acolher na fé pura quem ama.

Por trás de todas as coisas que vemos está sempre o ser humano. Quando contemplamos os outdors luminosos que enfeitam as ruas e avenidas das grandes cidades, por trás deles está o homem que os pensou e realizou. Quando paramos extasiados contemplando uma pintura, uma obra de arte, por trás dela está o ser humano que com sua inteligência soube traduzir numa forma plástica e harmônica algo que nos convida à paz ou infunde em nós o horror para com o mal... Por trás de tudo está o ser humano, desejoso de ir sempre além. Assim é em todas as ciências: da medicina à arte, à arquitetura, à astronomia, à agricultura transgênica...

Tudo leva-nos a gritar com o salmista: "Que maravilha sou eu, Senhor". Saber maravilhar-se humildemente do que somos capazes de fazer não é orgulho, mas humildade. Humildade é caminhar na verdade, na busca da única verdade que nos liberta e nos faz adoradores do Deus escondido e presente.

Onde estás? ... O que fizeste?

Mas por trás de todo homem está Deus, o Criador. Sem Ele nada existiria. O homem, para ser feliz, deve procurar a sua origem, o seu criador, a fonte de sua existência, este desejo que angustia e, em certo momento, faz-se dramático. É o único caminho da plenitude e da realização. Quem não tem fé sente-se necessariamente incompleto. Esta experiência de sentir-se incompleto e vazio não sou eu que afirmo, mas os filósofos de todos os povos e os teólogos de todas as religiões. A religião não é ópio e alienante, é necessidade para suprir a nossa deficiência. Deus nos criou necessitados e pobres, e isto faz parte da verdadeira antropologia. É o nosso DNA que, para ser pleno, deve estar ligado ao mistério.

Quanto mais estamos doentes, mais desejamos a saúde; quanto mais nas trevas, mais desejamos a luz. Assim, quanto mais estamos longe de Deus, consciente ou inconscientemente, mais o buscamos para dialogar com Ele.

Quando o homem descobre que está nu e tenta fugir de Deus, escondendo-se como nos relata o Gênesis, Deus sai do seu silêncio e vai à procura da criatura, criada por Ele por amor e feita à sua imagem e semelhança. Deus jamais poderá esquecer-se daquele que foi criado por amor e no amor. O amor é incapaz de esquecer. A memória do amor é mais forte do que a morte, recorda-nos o Cântico dos cânticos.

"Deus é o primeiro a chamar o homem. Ainda que o homem esqueça o seu criador ou se esconda longe de sua face; ainda que corra atrás de seus ídolos ou acuse a divindade de tê-lo abandonado, o Deus vivo e verdadeiro chama incessantemente cada pessoa ao encontro misterioso da oração. Essa atitude de amor fiel vem sempre em primeiro lugar na oração. A atitude do homem é sempre resposta a esse amor fiel" (Cat, 2567).

É necessário, para poder entrar no dinamismo da oração, sentir-se procurado e amado por Deus. Nós fugimos, mas alguém corre atrás de nós para que voltemos para a casa de onde saímos: o coração de Deus. Fora desta casa há frio, desolação, deserto, morte... Mas o homem geralmente gosta de "pedir as contas" a Deus Pai, como na parábola do filho pródigo, e percorrer outros caminhos, experimentar a brisa da falsa liberdade de fazer o que quer, de gerir a sua vida e de esbanjar o dom da graça. Mas, se for sincero consigo mesmo e com o Pai que abandonou, um dia, caindo em si mesmo, retomará o caminho da casa paterna.


O orante é quem percebeu a própria "nudez", a fragilidade, e escondeu-se para não se deixar ver tão miserável por Deus, que o havia criado tão belo, rico e bonito. Deus vem à nossa procura no nosso esconderijo de pecado e de dor, para reiniciar conosco um diálogo que nós mesmos interrompemos. É o que os místicos nos dizem constantemente: "Se é verdade que o homem procura a Deus, ainda é mais verdade que Deus procura o homem" (São João da Cruz). O próprio Jesus sai do coração do Pai para vir ao nosso encontro, para reatar conosco uma amizade que estava destruída pela força do pecado; e todos os profetas nos anunciam que o Senhor quer fazer conosco uma nova Aliança. Deus, em Jesus, veste-se da nossa humanidade para que não tenhamos medo, e vem nos procurar no deserto para reconduzir-nos ao redil, à casa paterna. Não podemos iniciar o caminho da oração se o orgulho, a auto-suficiência, a sede de poder e a soberba nos dominam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

"Que o caminho seja brando a teus pés,
o vento sopre leve em teus ombros,
Que o sol brilhe cálido sobre sua face,
as chuvas caiam serenas em teus campos.
E até que eu de novo te veja,
Deus te guarde na palma de sua mão"

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...